
A abstenção eleitoral voltou a chamar atenção no primeiro turno das eleições de 2026. Dos mais de 158,7 milhões de brasileiros aptos a votar, cerca de 125,2 milhões compareceram às urnas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso significa que mais de 33 milhões de eleitores ficaram fora da votação — aproximadamente 21% do eleitorado.
O número nacional é expressivo e envolve diferentes fatores. Entre eles está o crescimento da parcela do eleitorado com 70 anos ou mais, para quem o voto é facultativo. Antes das eleições, o TSE contabilizava mais de 16 milhões de eleitores nessa faixa etária.
Em Alagoinhas, porém, relatos recebidos pela reportagem após o primeiro turno chamam atenção para outro aspecto: problemas de organização, orientação, acessibilidade e estrutura registrados em locais de votação podem ter aumentado o desgaste de quem pretendia exercer o direito ao voto.
Um dos exemplos mais significativos está no bairro Santa Isabel.
Quase 6 mil ausentes em um raio de aproximadamente 1 km
Dados levantados pela reportagem mostram que 29.148 eleitores estão distribuídos em locais de votação situados em um raio de aproximadamente um quilômetro na região de Santa Isabel.
Desse total, 5.746 não compareceram ou desistiram de votar, uma abstenção próxima de 20%. Outros 1.009 votos foram anulados e 616 foram registrados em branco.
Os números por si só não permitem estabelecer uma relação direta entre ausência e eventuais problemas ocorridos nos locais de votação. Entretanto, os diversos relatos recebidos pela reportagem mostram situações que precisam ser analisadas e corrigidas antes do segundo turno.
Fatec teve mais de 1,6 mil ausentes
Na Fatec – Faculdade de Tecnologia e Ciência da Bahia, onde estavam cadastrados 8.205 eleitores, 1.677 não compareceram ou desistiram de votar, o equivalente a aproximadamente 20,4% do eleitorado do local.
Também foram contabilizados cerca de 400 votos nulos ou brancos.
Foi justamente na Fatec que a reportagem recebeu algumas das principais reclamações envolvendo filas, mudanças de seções, orientação insuficiente e condições estruturais.
Mudanças de local confundiram eleitores
Um dos problemas apontados foi a informação sobre seções que anteriormente funcionavam em outros prédios da região.
Segundo relatos recebidos pela reportagem, houve eleitores que chegaram à região acreditando que determinadas seções haviam sido transferidas integralmente para a Fatec. Na prática, elas estavam distribuídas entre diferentes unidades, incluindo a própria Fatec, a Escola Municipal Professor Álvaro Palmeira e o Colégio da Polícia Militar.
A falta de orientação clara teria feito algumas pessoas circularem entre diferentes locais em busca da seção correta.
O problema se torna ainda mais grave quando envolve idosos e pessoas com dificuldade de locomoção, para quem um deslocamento desnecessário pode representar esforço suficiente para provocar desistência.
A divulgação antecipada e ostensiva das mudanças, tanto pela imprensa quanto por meio de faixas e sinalização nos antigos locais de votação, poderia reduzir esse tipo de ocorrência.
Acessibilidade existia, mas faltava informação
Outro problema relatado diz respeito à acessibilidade.
Eleitores afirmaram que havia uma entrada lateral que facilitava o acesso de idosos, cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, mas que essa possibilidade não estava suficientemente sinalizada na entrada principal.
Com isso, parte das informações teria passado a circular informalmente entre coordenadores, eleitores e pessoas que já conheciam a estrutura do prédio.
A legislação eleitoral garante tratamento prioritário às pessoas com 60 anos ou mais, pessoas com deficiência, mobilidade reduzida, gestantes e outros grupos. Pessoas com mais de 80 anos têm precedência inclusive sobre os demais eleitores prioritários, independentemente do momento em que chegaram à seção.
Filas e atendimento prioritário também geraram reclamações
A organização das filas foi outro ponto citado pelos eleitores.
Houve relatos de insatisfação tanto entre pessoas da fila comum quanto entre aquelas que tinham direito ao atendimento prioritário. A falta de informação sobre como a preferência deveria funcionar contribuiu para a percepção de desorganização.
As normas do TSE estabelecem quais grupos têm preferência para votar e determinam prioridade absoluta para os maiores de 80 anos. A regra considera, entre os demais grupos prioritários, a ordem de chegada.
Por isso, além da presença de equipes de apoio, é fundamental que esses profissionais estejam preparados para explicar aos eleitores como funciona o atendimento e organizar o fluxo antes que grandes filas sejam formadas.
Seção 98 concentrou críticas à estrutura
Também foram relatados problemas relacionados à seção 98, instalada, segundo eleitores, em uma das menores salas do local e sem aparelho de ar-condicionado.
Os relatos descrevem ambiente quente, pouca ventilação e longa espera.
A situação teria se prolongado durante o dia e a votação avançado para além do horário regular em razão da permanência de eleitores que já estavam na fila. Pelas regras eleitorais, os portões dos locais são fechados às 17h, mas quem já estiver na fila nesse momento continua tendo direito a votar.
A informação sobre o horário exato de encerramento da seção pode ser conferida nos registros oficiais da urna. O próprio TSE disponibiliza os boletins e logs das urnas, que permitem consultar horários de início e encerramento da votação.
Outros locais do bairro Santa Isabel também tiveram abstenção elevada
Os números mostram que a ausência de eleitores não ficou restrita à Fatec.
No Colégio da Polícia Militar, onde 7.595 pessoas estavam cadastradas para votar, 1.407 não compareceram, uma abstenção de aproximadamente 18,5%.
Na Escola Municipal Professor Álvaro Palmeira, foram 352 ausentes entre 1.689 eleitores, cerca de 20,8%.
No Colégio Estadual Deputado Luís Eduardo Magalhães, 748 dos 3.479 eleitores não votaram, o equivalente a aproximadamente 21,5%.
Já na Escola Maria José Bastos da Silva, 525 dos 2.698 eleitores deixaram de comparecer, uma taxa próxima de 19,5%.
Segundo turno exige correções
Os relatos, entretanto, apontam medidas relativamente simples que podem evitar a repetição dos problemas no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Entre elas estão a divulgação ampla dos locais que receberam seções transferidas, a instalação de faixas nos antigos pontos de votação, maior sinalização interna e externa, identificação visível dos acessos para pessoas com mobilidade reduzida e treinamento adequado das equipes de apoio.
Também é necessária atenção à distribuição das seções dentro dos prédios, especialmente aquelas com maior número de eleitores, para que sejam instaladas em ambientes compatíveis com o fluxo esperado.
Quem não compareceu ao primeiro turno pode votar normalmente no segundo, desde que esteja em situação regular com a Justiça Eleitoral. Cada turno é considerado uma eleição independente.
Com uma eleição nacional que deixou mais de 33 milhões de brasileiros longe das urnas, facilitar o acesso e garantir informação clara ao eleitor não é apenas uma questão de logística. É parte essencial do próprio processo democrático.
A reportagem encaminhará os relatos e questionamentos à Justiça Eleitoral para que esclareça as ocorrências registradas nos locais de votação e informe quais providências serão adotadas para o segundo turno.
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Mais de 33 milhões de brasileiros não foram às urnas no primeiro turno. E, no bairro Santa Isabel, Alagoinhas, os números também chamam atenção.
Em um raio de aproximadamente 1 km, 29.148 eleitores estavam cadastrados. 5.746 não compareceram.
Só na Fatec foram 1.677 ausentes entre 8.205 eleitores.
Mas os números não contam toda a história.
Eleitores relataram filas desorganizadas, informações desencontradas sobre mudanças de seções, dificuldade para localizar os novos locais, problemas de acessibilidade e falta de orientação adequada.
Na seção 98, também houve reclamações sobre calor, estrutura inadequada e longa espera.
Os relatos mostram situações que não podem se repetir no segundo turno. É preciso:
Divulgação das seções transferidas.
Sinalização adequada.
Informação sobre acessibilidade.
Equipes preparadas para orientar.
Melhor organização das filas e das salas.
O segundo turno será no dia 25 de outubro.
E quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no segundo.
Democracia também se faz garantindo que quem quer votar consiga chegar à urna sem enfrentar obstáculos desnecessários. Muitos foram até o local de votação mas desistiram de votar pelas dificuldades encontradas.
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