
Depois do primeiro turno das eleições, Miguel Lago afirmou que o Brasil está vivendo uma revolução de extrema direita. Concordo com ele há tempos, e vejo a "guerra contra o crime" como o núcleo de um movimento muito mais amplo, que a coloca em marcha. É por isso que os principais nomes desse movimento, de Bolsonaro a Derrite, de Tarcísio a Ruas, vêm do campo da segurança.
"Menos", me dizem meus amigos. Revoluções como as do Irã e Tunísia, retrocessos inimagináveis após democracias que pareciam estáveis, jamais aconteceriam aqui. A alternância de poder é salutar à democracia e, afinal, a política segue nas "quatro linhas da Constituição".
O pior cego, dizia minha avó, é o que não quer ver. Esse movimento emerge das ruas em junho de 2013, e se espalha por partidos em 2014 (hoje PL, União, PP e Republicanos). Esses partidos governavam então um estado, com 0,2% da população, tinham 23% da Câmara e 19% do Senado.
Em 2018, sua onda já elegeu Bolsonaro, 6 governadores (10% dos brasileiros), 36% da Câmara e 24% do Senado. Em 2022, perdeu a presidência por pouco; mas ganhou 10 estados (43% da população), 48% da Câmara e 38% do Senado.
Mesmo sob Lula 3, o movimento construiu o consenso de que segurança não é uma política pública, mas uma guerra moral. Sinistras biografias foram eleitas para as prefeituras em 2024, e agora para governos e senado, atingindo o centro da cena política.
Falo de movimento, ainda uma força instituinte, porque ele não se tornou regime total. Seu projeto é progressivo, limpar a sociedade daqueles que eles mesmos decidirem que a degeneram, sem mediações institucionais. Há um ano, o maior massacre policial no país, feito por 2.000 policiais com câmeras desligadas, foi aclamado pelas massas e reivindicado como ideal por políticos. Mesmo com cinco policiais mortos na operação.
Depois disso, quem já botou uma medalha no peito de Adriano da Nóbrega pode ser o novo líder revolucionário. Ele lidera a eleição presidencial após o primeiro turno, com o movimento tendo já obtido 12 estados, governando diretamente 61% da população, 46% da Câmara e 56% do Senado.
Com a Presidência da República, e a indicação de mais quatro ministros no STF, haverá maioria dessa extrema direita nos três níveis de Executivo e Legislativo, e no Judiciário.
A segunda força legislativa será a direita fisiológica.
É preciso limpar a sociedade dos bandidos. Matar quem vende droga na esquina de madrugada, aos 15 anos, vai ser mais simples. Mas que outros degenerados podemos eliminar, não havendo contrapoder? De repente, juízes garantistas viram os que "defendem bandido".
Jornalistas, cientistas e humoristas de oposição podem receber uns avisos. Os adversários se tornam todos corruptos, jamais os nossos. O círculo dos degenerados se expande. Um filho gay, "prefiro que morra", disse certa vez Bolsonaro. O pensamento totalitário é expansivo.
O movimento faz uma guerra de posições, já há muito tempo fora das "quatro linhas". Ocupa de conselhos tutelares ao Senado, do WhatsApp do bairro ao governo federal, de diferentes partidos ao STF, de igrejas à Faria Lima, do sertanejo ao gospel. Mas ocupa sobretudo as posições coercitivas, o controle das armas.
É esse o movimento que, com sua violência e seus valores revolucionários, está prestes a nos salvar da "velha política", da imaginária "ditadura esquerdista", em sua cruzada moral.
Publicado na Folha de São Paulo, 12/12/2026.
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