
O ex-ministro Aloizio Mercadante, que será o presidente do BNDES no novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou nesta quarta-feira os nomes de sete dos nove diretores que vão compor sua equipe no banco estatal de fomento, a maioria nomes de mercado. Entre eles, no entanto, estão também os ex-ministros Nelson Barbosa (Fazenda), que será diretor de planejamento, e Tereza Campello (Desenvolvimento Social), que será responsável pela área social do banco. Ambos são tidos como desenvolvimentistas.
Mercadante apresentou os nomes durante um almoço com grandes empresários e executivos de setores como financeiro, agronegócio, energia, farmacêutico, bebidas, construção e varejo.
Além dos dois ministros, foram anunciados cinco nomes, dos quais quatro são profissionais do mercado financeiro, que acompanharam Mercadante ao almoço. Alexandre Abreu, ex-presidente do Banco do Brasil e do Banco Original, será o diretor financeiro do BNDES. A diretoria de inovações será ocupada pelo ex-presidente da Embrapii José Luis Gordon.
A área de mercado de capitais será chefiada pela atual presidente do Standard Bank Brasil, Natalia Dias. Já a presidente da subsidiária brasileira do banco de investimentos francês Natixis, Luciana Costa, será a diretora responsável pela área de economia verde do BNDES.
Ex-conselheiro da Petrobras, Luiz Navarro de Britto também está entre os anuciados, mas ainda não há a confirmação de qual setor da estatal ele comandará. Navarro de Britto foi, por pouco mais de dois meses, ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), no fim do governo de Dilma Rousseff (PT).
A plateia de Mercadante foi formada por pouco mais de 20 grandes nomes do PIB na casa do presidente do conselho de administração do grupo Esfera, João Camargo, no bairro do Morumbi, zona oeste de São Paulo.
Os nomes anunciados sinalizam, segundo Camargo, que haverá na diretoria gente com sólida experiência no setor financeiro, algo bem visto pelos empresários. O mercado recebeu mal o nome de Mercadante na semana passada, muito em função do temor de que ele faça uma gestão heterodoxa e desenvolvimentista à frente da instituição.
— Nós não vamos trazer o BNDES do passado. Não tem espaço fiscal no momento para financiar o BNDES. Temos de buscar novas fontes de financiamento, inclusive recursos de fora que o Brasil, na liderança do presidente Lula e preservando a Amazônia, (...) pode atrair — afirmou Mercadante a jornalistas, e afirmou que o banco deve priorizar o crédito para micro, pequenas e médias empresas e projetos que promovam uma economia verde.
Mercadante elogiou a colaboração da atual diretoria do BNDES, comandada por Gustavo Montezano, com a equipe de transição.
— Tem um certo problema entre Brasília e a Faria Lima, parece que falam idiomas diferentes. Eu trouxe três tradutores que são presidentes de banco para ajudar no diálogo e na interpretação. Estamos buscando as mesmas coisas para o país: gerar emprego, uma economia verde, reindustrializar o país — disse Mercadante.
O futuro presidente do BNDES afirmou que "não há espaço" para que o banco volte a cobrar a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), praticada durante os governos de Dilma e que era fortemente subsidiada pelo Tesouro. Ele reafirmou que a atual taxa, a Taxa de Longo Prazo (TLP), só pode ser modificada pelo Congresso e que gostaria, apenas, de fazer ajustes simples na taxa. A atual TLP varia de acordo com a inflação medida pelo IPCA e mais 5,23% ao ano.
— A TLP hoje (depende de) uma taxa de inflação mensal. Quando a inflação subiu, em maio, chegou a 27%. O pequeno produtor e investidor calcula a prestação no faturamento dele, mas se dá uma subida dessa, ele se desorganiza. Você precisa ter, por exemplo, uma taxa de inflação que seja uma média do período, é uma mudança simples. Por outro lado, se eu faço um financiamento de longo prazo, faz todo sentido ter taxa de juros mais baixa — ressaltou Mercadante.
Durante o almoço, cada um dos cinco futuros diretores presentes se apresentou e fez um breve discurso, segundo pessoas presentes no local. Entre os empresários que acompanharam o evento, estava Joesley Batista, acionista da J&F, controladora da gigante do setor de proteína animal JBS, empresa da qual o BNDES detém 20,81% do capital.
Além dele, vieram acionistas de grandes empresas como André Esteves, fundador e controlador do banco BTG; Rubens Ometto, presidente doo conselho de administração da Cosan; Jean Jereissati, presidente da Ambev; Fábio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim; Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban); Eugênio Mattar, fundador da Localiza; Carlos Sanchez, presidente do laboratório EMS; Eduardo Saggioro, presidente do conselho de administração da Americanas; e Wilson Quintella, fundador da Estre Ambiental.
Da lista acima, Joesley, Esteves e Quintella já foram alvos, no passado, de fases ou desdobramentos da Operação Lava-Jato.
O anfitrião do encontro, João Camargo, disse que o almoço serviu para dirimir quaisquer restrições ao nome de Mercadante. O futuro presidente do BNDES ouviu do grupo que não é desejável a volta da antiga política de fomento às grandes empresas de setores considerados estratégicos, os chamados campeões nacionais, e que não é bom que o Tesouro subsidie os juros dos financiamentos.
Por outro lado, ouviu pedidos para que o banco priorize a reindustrialização do país a concessão de crédito às indústrias locais.
— A Faria Lima confia em Haddad e Mercadante hoje com 100% de certeza. O mercado hoje sabe muito bem a transparência que o Mercadante está dando. Os empresários também elogiam muito a postura do Haddad até o momento. (...) Haddad está ciente da necessidade de uma âncora fiscal e Mercadante deixou claro que não vai haver subsídio do Tesouro e que vai priorizar inovação e tecnologia — disse Camargo.
Segundo o presidente do conselho do Esfera, o futuro presidente da estatal também afirmou que continuará a modelar concessões no BNDES.
— Mercadante teve uma conjunção de inferno astral. Quando ele foi escolhido, a Câmara colocou em votação a mudança da lei das Estatais dizendo que era por causa dele, o que não é verdade. Foi um tiro nas costas — ressaltou Camargo.
Fonte: O Globo
Mín. 19° Máx. 30°