
A deflação de julho, que se repetirá em agosto, talvez até em setembro, é produto - o IPCA mostra - da maquiagem aos postos de combustíveis. A desoneração artificial pesada resulta. Produz, porém, desigualdade inflacionária.
O IPC, da FGV, deixa clara essa perversidade: aumentou a diferença entre a inflação para os 10% mais ricos e para os 10% mais pobres.
As famílias na faixa de um a um e meio salário mínimo tiveram deflação de 0,36% em julho. As com renda entre onze e meio e trinta e três salários mínimos colheram queda de 1,05% nos preços. Quase o triplo.
A diferença bateu em 0,69%. A maior desde dezembro de 2020.
Baixa - mais ou menos artificial - nos preços dos combustíveis beneficia, sobretudo, quem tem grana. Para os mais pobres, é o custo dos alimentos o que pega na veia. E aí, onde o mundo real se impõe, a coisa está feia. Faz tempo.
Em doze meses, o IPC acumula alta de 7,88% para os mais pobres; e de 7,43% para os mais ricos. No setor de alimentos, atenção: a alta é de 16,2% para os mais pobres; e de 13,8% para os mais ricos. Um fosso grande.
O pacotão de bondades do governo, encarnado na PEC Kamikaze, tenta compensar essa pancada investindo nos efeitos mitigadores do Auxílio Brasil alçado a R$ 600. O jogo está jogado.
Por Carlos Andreazza - O Globo
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