
Johnny Rotten, com suas letras antissistema, iniciou uma tendência musical que mudou o rock e o pop. Hoje, mora na Califórnia, e se dedica a um objetivo que pouco tem a ver com a música: cuidar de sua esposa, doente de Alzheimer. Johnny Rotten (65) e Nora Forster (78), estão juntos há 45 anos.
O cantor resumiu seu consolo nas palavras com as quais se referiu à mulher durante a emotiva entrevista: “Ela não se esquece de mim. Esquece todo o resto, menos eu”. Muito realista, ele disse que sabe que a doença é incurável e que sua esposa não melhorará nunca. Mas explicou que “é preciso enfrentar isso e deixar de lado a autopiedade. É algo que posso dizer com orgulho que meus pais me incutiram desde cedo: ‘Não tenha pena de si mesmo, siga em frente’”.
O casal vive nos Estados Unidos desde os anos oitenta, numa casa de 1910 que originalmente pertenceu à atriz Mae West e que consideram como “um castelo encantado”. Dinheiro não lhes falta. Rotten possui outras casas em Malibu e em Londres, mas não encontra ajuda para o problema da esposa. “Essa doença é uma grande incógnita”, explica o ex-líder dos Sex Pistols. “Nora sempre se alimentou de forma saudável. Isso deve ser genético, mas estou aberto a qualquer ideia.” O artista passa então a descrever a vida de sua esposa, que é a também a dele: “Viajar de avião a assusta, e ela se desorienta nos hotéis. Precisa saber que as coisas são suas: sua cadeira, seu ursinho de pelúcia... Gostamos de assistir a comédias e às notícias juntos. Sei que ela vai piorar e que isso se transformará em algo terrível, mas estamos enfrentando com dignidade. Seria bastante fácil fugir disso e dizer: ‘Não é minha responsabilidade’. Mas sou John e, quando eu me comprometo, é para sempre e mantenho o compromisso. Estou muito orgulhoso de fazer o melhor que posso para ela. Estamos juntos há 45 anos. Não vamos mudar nada. Somos um casal, nos amamos, nos adoramos.”
Johnny explica que Nora Forster, a quem chama de Babbie, mantém bom estado físico e sempre foi muito sociável, aventureira e amante da diversão. Mas ele também é consciente do lado sombrio da doença, e lança quase um apelo a outras pessoas que possam estar na mesma situação. “Como cuidador em tempo integral, você pode se tornar bastante suicida. Terei momentos extremamente tristes e ao mesmo tempo cheios de raiva. Mas as coisas são como são, e você tem que aceitar. E, infelizmente, devo dizer que você quase desfruta isso pela experiência. Mantenha-se mentalmente intacto e esteja orgulhoso do que está fazendo. A vida deve continuar; você deve lutar pela vida até o final mais amargo.”
Johnny Rotten sabe o que diz. Ele cresceu no norte de Londres, numa família de pais irlandeses com três irmãos mais novos. Aos sete anos, sofreu uma meningite que o fez passar um ano hospitalizado. Quando despertou do coma, não reconheceu os pais. Teve que aprender a comer, a andar, a falar... “Ter perda de memória é assustador”, diz ele sobre aquela época. “Você se sente abandonado, e ninguém te diz nada a não ser esses estranhos, papai e mamãe, que continuam aparecendo e você não reconhece. Estou aplicando essas habilidades agora com minha querida esposa.”
O casal não teve filhos. Mas Nora tinha uma filha, Ariane, de um casamento anterior, que chegou a ser vocalista de uma banda de punk, The Slits. Rotten acredita que a doença de Nora começou a dar sinais justamente quando Ariane morreu há 11 anos, aos 48, de câncer de mama. “Perder sua filha foi uma dor inexplicável. A partir disso, foram surgindo pequenos problemas que se acumularam. Aconteceu tão gradualmente, tão lentamente, que é impossível rastrear quando se torna definitivo.” Quem gritou ao mundo “não há futuro” no refrão da canção God Save The Queen lança agora uma mensagem de esperança. “Elimine a autopiedade e enfrente uma tragédia óbvia com a mente aberta. Assim é que as cartas caíram. Isso é o que é. Este é o seu futuro. Mas não é o final de seu futuro. Você terá uma vida depois. Você só pode esperar.”
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