
No final de janeiro, a empresa de ensino online Hotmart, fundada em Belo Horizonte, ofereceu uma oportunidade que muitos brasileiros sonham: centenas de vagas de emprego em home office. No entanto, elas não serviam para todo mundo. Todas as 400 posições eram para o time de tecnologia.
O que a Hotmart e muitas outras empresas querem são os desenvolvedores. Com a pandemia da Covid-19, o ano de 2020 acentuou um problema do mercado de trabalho e do ambiente de negócios brasileiro. Faltam mais profissionais de tecnologia do que antes da pandemia.
A ampliação desse déficit pode ser percebida graças a dados que mostram como a vagas da área saltaram. Só na grande São Paulo, o aumento foi de 600% na plataforma Catho.
Segundo um relatório da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, o déficit de profissionais pode chegar a 260 mil até 2024.
O número é uma previsão ao comparar o aumento de empregos no setor com a capacidade de formação de alunos no Brasil.
O aumento na procura por desenvolvedores aconteceu principalmente porque o isolamento social forçou uma digitalização da economia.
“A alta demanda dos profissionais de tecnologia é global, não é só uma questão do Brasil. A pandemia acelerou ainda mais. Houve um crescimento da digitalização das empresas, que criaram produtos, investiram em vendas online, vendas de plataformas, etc. Todas tiveram que desenvolver isso”, explica Luana Castro, gerente de Tecnologia da Informação da consultoria Michael Page.
Apesar de o Brasil fazer parte de uma tendência global de falta de mão de obra qualificada em tecnologia, fatores locais agravam o problema. Entre eles estão o ensino de baixa qualidade na comparação internacional e o pouco domínio da língua inglesa na população brasileira, diz Luana.
Para piorar o quadro, a tecnologia vem mudando em ritmo acelerado e novas linguagens de programação surgem a todo modo momento. O profissional, então, está sempre correndo atrás do que é tendência. "De 12 em 12 meses é possível ver mudanças no perfil de profissional exigido pelas empresas, o que só aumenta a dificuldade de encontrar bons profissionais", diz Luana.
Entre as habilidades para os profissionais de tecnologia com mais destaque para 2021, segundo o LinkedIn, estão o domínio de linguagens como Git, Unity, JavaScript, React.js, Scrum.
A relação com o trabalho remoto - Um efeito colateral dessa falta de profissionais apontados pelos especialistas é a busca por serviços feitos em outros países, como a Índia. O país é um grande polo de profissionais da área e pode, no longo prazo, ser mais atrativo para empresas que não podem esperar pela formação dos profissionais.
Empresas brasileiras, porém, ainda não entraram com força nessa onda porque o real não é uma moeda forte a ponto de permitir a contratação de um grande número de profissionais que moram em outros países.
O que acontece no Brasil normalmente é uma busca por bons profissionais residentes longe dos grandes centros, uma tendência em expansão junto com o esvaziamento dos escritórios.
Na Dock, uma startup que dobrou de tamanho em 2020 ao oferecer soluções de tecnologia para instituições financeiras, tem 150 vagas de trabalho abertas para desenvolvedores. Por causa da escassez de profissionais, aliada à necessidade de isolamento social, a empresa decidiu abolir seu escritório na região do Alphaville, em São Paulo, e instaurar o trabalho de qualquer lugar (ou anywhere office), uma das principais tendências dos recursos humanos no pós-pandemia. Atualmente, apenas 35% dos trabalhadores da Dock moram na Grande São Paulo.
“A dificuldade de contratação continua grande, mas um ponto de virada é que a gente não tem mais a necessidade de contratar pessoas só de São Paulo. As empresas têm que mudar esse mindset. Ampliar esse leque de entrada, esse funil, foi bom", diz Camila Shimada, Head de People, Marketing e Facilities na Dock. Para ela, o benefício do home office é fundamental para o profissional de tecnologia e ajuda as empresas a procurarem talentos de outras cidades, estados e países.
Na empresa, 95% dos profissionais não querem voltar ao modelo tradicional de trabalho, com cinco dias na semana indo à empresa. Uma pesquisa feita pela gestão da empresa também mostra que 67% do time se movimentou e trocou de localização geográfica.
As consequências para os negócios - A escassez generalizada de profissionais de TI causa uma certa paralisação no desenvolvimento da estratégia das empresas, diz Ana Paula Prado, principal executiva no Brasil da agência online de recrutamento e seleção Infojobs. Com uma “cadeira vazia”, algum caminho de desenvolvimento pode ficar travado.
Em boa medida essa paralisia ocorre pelo aumento de custos nas empresas para adquirir o passe de profissionais cada vez mais valorizados.
De acordo com a consultoria em recursos humanos Revelo, os salários oferecidos aos profissionais de tecnologia dispararam cerca de 20% em 2020, em média.
Fonte: Revista Exame
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