Caso de família - A ligação dos Bolsonaros com os milicianos da zona oeste do Rio vem de longa data. Flávio, então deputado estadual, nomeou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Nóbrega recebiam sem trabalhar e devolviam parte dos salários ao ex-PM Fabrício Queiroz, que atuava como assessor do parlamentar – as famosas rachadinhas. Inclusive, o MP do Rio protocolou uma denúncia contra Flávio citando Adriano como um dos envolvidos no caso.

Amigo do ex-capitão Adriano nos tempos de Polícia Militar, Queiroz é um dos muitos PMs e militares que orbitam a família Bolsonaro desde os anos 1980. Suboficial reformado da PM, ele serviu com o número 1 da República na Brigada de Infantaria Pára-Quedista, na Vila Militar, no Rio. Desde então, estreitaram os laços de amizade, que levaram Queiroz a ocupar o cargo de assessor do primeiro filho. “Ele [Queiroz] é meu amigo desde 1985, é meu soldado”, já afirmou Bolsonaro ao ser questionado sobre a relação com o assessor.

Flávio Bolsonaro afirma que a responsabilidade pelas nomeações da mãe e da ex-mulher de Adriano da Nóbrega em seu gabinete foi de Queiroz, que confirmou a versão em depoimento. Entretanto, vale lembrar que o atual senador do clã Bolsonaro e o miliciano eram próximos. Flávio já havia até entregue a medalha Tiradentes, principal honraria da Assembleia Legislativa do Rio, ao ex-capitão. Ronnie Lessa, outro ex-PM do Escritório do Crime, mora no mesmo condomínio de Jair e Carlos Bolsonaro, a poucas casas de distância. Lessa está sendo investigado como um dos executores do assassinato da vereadora Marielle Franco e está preso hoje.

Queiroz também mantinha contatos frequentes com integrantes do Escritório do Crime. As ligações suspeitas foram detalhadas em meio às investigações do esquema de rachadinha no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro e das atividades criminosas do grupo, que resultou em dois processos que tramitam no Tribunal de Justiça do Rio.

Os promotores estão investigando a ampliação das atividades criminosas da milícia comandada pelo ex-caveira do Bope. Em inquérito ainda não concluído, o MP apura se o ramo de construção de prédios ilegais teria sido financiado em parte com recursos provenientes da rachadinha no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, como o Intercept revelou, em abril de 2020. Na ocasião, o clã presidencial silenciou sobre as suspeitas. Outro inquérito das rachadinhas, já finalizado, indiciou Flávio Bolsonaro. Mas segue paralisado na justiça enquanto os advogados do primeiro filho tentam anular as provas levantadas nas investigações.

Um ano depois da morte de Adriano da Nóbrega, a misteriosa teia de relações do ex-capitão com personagens da política fluminense – incluindo o clã Bolsonaro – e do submundo da polícia e da contravenção parece ter sido sepultada com o matador de aluguel.