
A fome, a desigualdade, as guerras e as doenças seriam suficientes para amaldiçoar a curiosidade de Pandora, ao abrir a caixa onde estavam guardados os males do mundo, agora acrescidos da pandemia de Covid. O resultado da armadilha projeta 235 milhões de pessoas em busca de assistência humanitária no ano novo, muito feliz para pouquíssimos, velle non discitur – o querer não se aprende – e na imaginação de pessoas teimosamente crédulas.
A perspectiva divulgada pelas Nações Unidas, em relatório a ser lançado em Genebra, Suíça, aponta aumento de 40% dos vulneráveis em relação a 2020, a maioria moradoras de países do último mundo. Como agravante, é zero a expectativa da compaixão ou caridade de quem detém recursos, como os países centrais, enriquecidos pela exploração de colônias desde a era das invasões por caravelas.
Conseguir 29 bilhões de euros para ajudar famélicos seria superar o pessimismo, pedra fundamental de uma espécie cujo aspecto de seu principium individuationis – princípio de individuação – é a maldade por excelência. Por outro viés, constatando a gênesis de duas humanidades, uma com acesso a delícias, outra, condenada a morrer rápido, é possível pensar a congênita distinção como causa para o efeito de a pobreza extrema crescer pela primeira vez em 22 anos.
O contingente de 736 milhões de pessoas, mais ou menos três brasis e meio de gente, sofrerá a dor e o sofrimento de sobreviver com uma média de 1,60 euro por dia, suficiente para meia refeição.
São 56 países afetados por crises, dos quais 34 onde a população emagrecerá forçosamente, enfrentará conflitos bélicos, sentirá o frio do relento em noites insones, além de sofrer mais com mudanças climáticas e dificuldades criadas pela pandemia.
Acenam os idealistas com US$ 35 bilhões para países como Moçambique e República Centro-Americana, na África; Colômbia e Venezuela, na América; Afeganistão, Iêmen e Síria, no Oriente Médio: ajuda desesperada para adiar a inevitável multiplicação de caveiras.
Fonte: Jornal A Tarde
Mín. 22° Máx. 27°