Os Estados Unidos nunca viram uma eleição presidencial como a de 2020. O novo coronavírus já infectou mais de 8 milhões de pessoas, causou cerca de 220.000 mortes no país e está ressurgindo com força a menos de duas semanas do dia da votação. Os protestos por justiça racial paralisaram o país no meio do ano e reabriram a ferida mais sensível da sociedade americana. A política vai seguir dando o tom na bolsa? Vai. E você pode aproveitar as oportunidades. Descubra onde investir agora.
A votação pelo correio, prática corriqueira adotada por dezenas de milhões de eleitores, tornou-se alvo de teorias da conspiração e é mais um símbolo do abismo que separa democratas e republicanos. O Senado está correndo para aprovar uma juíza conservadora para a Suprema Corte, o que pode levar a uma mudança de postura da corte por décadas. E nem falamos da economia, assunto prioritário para os americanos na hora de escolher um novo presidente — e o que mais deve afetar você, leitor, nos próximos quatro anos.
Donald Trump e Joe Biden discordam em praticamente tudo, e isso certamente é verdade no caso das ideias sobre a economia. Quem quer que vença a eleição de 3 de novembro assumirá um país em crise profunda.
A recessão causada pela pandemia é uma das mais graves da história. Estima-se uma contração de 4% no PIB deste ano — um dado mais promissor do que as previsões catastrofistas de alguns meses atrás, mas ainda assim preocupante. Ainda não se sabe que letra será lida na curva do gráfico do PIB. Os mais otimistas enxergaram contornos de um “V”, um repique motivado em grande parte pelo pacote de estímulo econômico aprovado no começo da pandemia.
Mas esse dinheiro está acabando, e não há sinal de acordo no Congresso para uma segunda dose. Outros consideram mais razoável uma recuperação mais lenta, na forma da letra “U”. O cenário mais pessimista é o de uma recuperação em “L”: anos de dificuldades econômicas e desemprego em alta.
Os planos de Trump, republicano, e de Joe Biden, democrata, para trazer a economia de volta à superfície são muito diferentes. Ou pelo menos é com essa hipótese que trabalham os eleitores e o mercado, já que o presidente americano não se deu ao trabalho de publicar um programa detalhado.
Reunindo declarações e discursos de Trump, além de uma proposta de orçamento para o ano que vem apresentada antes da pandemia, os analistas concluem que o plano do presidente é basicamente repetir a receita do primeiro mandato: cortar impostos e reduzir (um pouco) os gastos do governo.
A visão de Joe Biden é oposta. O democrata quer aumentar a taxação das empresas e dos mais ricos e pôr em prática um ambicioso plano de investimentos governamentais. Não se trata de um programa ditado pela esquerda radical, como diz Trump em tom de ameaça, nem de um abandono dos princípios capitalistas.
Mas Biden, segundo todas as pesquisas o grande favorito para assumir a Casa Branca em 20 de janeiro de 2021, deve representar uma guinada importante na economia americana. Caso ele consiga aprovar seus planos mais ambiciosos — o que vai depender de uma vitória democrata nas eleições para o Senado, algo ainda incerto, os Estados Unidos serão um país mais verde, mais acolhedor aos imigrantes, mais comprometido com a educação e com a saúde financiada pelo governo.
Tudo isso vai custar muito dinheiro. O programa de Biden fala em investimentos de 7,3 trilhões de dólares nos próximos dez anos, que vão de infraestrutura a educação e ampliação da concessão de benefícios.
O aumento de impostos previsto cobre pouco mais da metade dessa conta, mas os analistas acreditam que potenciais efeitos negativos da taxação extra serão compensados de outras maneiras. “Não estamos falando simplesmente de aumentar o tamanho do governo”, diz à EXAME Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics e coautor de um relatório que avaliou os planos de Biden e Trump. “Estamos numa situação de crise, com desemprego, juro zero e baixa inflação. Nesse contexto, faz sentido um plano fiscal agressivo de investimentos.”
Zandi traçou quatro cenários, dependendo do vencedor da eleição e da composição do Congresso (veja o quadro abaixo). Caso Biden obtenha o controle do Senado e consiga aprovar seu plano na íntegra, seriam criados 7 milhões de empregos a mais em comparação com um segundo mandato de Trump (com maioria de senadores republicanos), de acordo com cálculos da Moody’s Analytics.
A renda média dos americanos também cresceria quase 5.000 dólares anuais, pois os aumentos de impostos incidiriam sobre a ínfima parcela da população cujos rendimentos superam 400.000 dólares anuais. Este é um dos pontos centrais da campanha do democrata, que cresceu numa família de classe média: garantir que o pêndulo volte a se mover no sentido dos trabalhadores.
O plano de Biden também prevê aumento no imposto de renda das empresas: a alíquota passaria de 21% para 28%. Trump, que promete não mexer na taxação de pessoas jurídicas, afirma que essa medida contribuiria para um colapso da economia e da bolsa de valores.
Mas os economistas pintam um quadro menos aterrorizante. “Primeiro, temos de levar em conta que o patamar de 28% já tinha o apoio dos próprios republicanos antes do corte promovido por Trump”, diz Richard Prisinzano, diretor do Wharton Budget Model, centro de estudos da Universidade da Pensilvânia.
De acordo com Prisinzano, um eventual aumento do imposto pago pelas empresas seria compensado de outras maneiras. “Isoladamente, haveria impacto nos salários e nos níveis de emprego. Porém, no longo prazo, investimentos em educação e infraestrutura significam uma força de trabalho mais produtiva e uma economia mais competitiva.”
As projeções do estudo se estendem por décadas no futuro. Uma delas aponta redução de 6,1% no déficit e aumento de 0,8% no PIB — em 2050. Prisinzano admite que eleitor nenhum pensa com um horizonte tão distante, especialmente com as incertezas urgentes da pandemia. Além disso, há chance real de que o plano de Biden que está no papel sofra cortes consideráveis quando chegar a hora de encarar o mundo real.
Ele promete investir 1,9 trilhão de dólares em acesso universal à educação para crianças com menos de 5 anos, redução das dívidas estudantis e universidades gratuitas para a população de baixa renda. Outro 1,6 trilhão seria destinado à infraestrutura. É menos do que desejaria a ala mais à esquerda do Partido Democrata — mas talvez mais do que os republicanos estejam dispostos a engolir.
Fonte: Revista Exame
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