
As mulheres que estão à frente do mercado financeiro no Brasil, um nicho ainda dominado pelos homens, são discretas, não costumam aparecer muito na mídia, mas, sem dúvida, já conquistaram posições estratégicas. É possível encontrá-las em postos-chaves em todas as grandes organizações do setor, a começar pelo órgão regulador, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Desde o final de 2007, Maria Helena dos Santos é a presidente do colegiado da entidade que determina as regras do setor de investimentos no país. Entretanto, na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), não há mulheres no conselho administrativo.
Na vice-presidência da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) nacional, a administradora Maria Cecília Rossi, 47 anos, que tem uma filha de 5 anos, é um exemplo da eficiência do low-profile feminino.
-As mulheres são mais comedidas nos comentários, até por isso aparecem menos. No dia-a-dia, seu trabalho é mais consistente. Em geral, são muito dedicadas e de alguma forma buscam sempre ter maior segurança nas suas decisões - avalia a diretora da Interlink consultoria.
- Estou há 26 anos nesse ramo e realmente já passei por todos os lados do balcão do mercado financeiro. Já trabalhei em corretora e em bancos. Estive na BM&F e na CVM. Eu fui membro do conselho da Bovespa que aprovou a abertura de mercado e atualmente faço parte do grupo que define a auto-regulação da bolsa - acrescenta.
Para quem tem filhos, é difícil incluir eventos na agenda - Quanto ao pequeno percentual feminino na Apimec, cerca de 14% (285 mulheres dos 1998 associados no país), Maria Cecília acredita que não reflita exatamente sua distribuição no mercado.
- Na época em que eu me formei, as mulheres eram um terço da turma e hoje, correspondem à metade. Mas na hora de desempenhar um papel numa associação, que é uma atividade voluntária, a mulher ainda enfrenta as dificuldades da divisão das tarefas da casa. Para aquelas que são casadas e têm filhos, o pouco tempo depois do trabalho acaba sendo tomado pela atividade da família - disse.
Apesar de concordar que a situação das mulheres evoluiu nesse mercado de trabalho, a sócia-diretora da Global Equity, Patrícia Branco, 33 anos, um raro exemplo de rápida ascensão em uma empresa do setor financeiro, é menos otimista, não acredita que a presença feminina chegue a 30% ainda.
- É um mercado que os homens ainda dominam. Um mercado machista, apesar da evolução. Você pode ver isso nas mesas dos grandes eventos, onde a participação feminina é restrita. É mais difícil para a mulher se impor na posição de comando - afirma.
A economista, que tem 10 anos de experiência no mercado financeiro, acredita que o maior número de investidoras também está dando maior impulso à entrada das mulheres no mercado financeiro.
- É mais fácil encontrar mulheres na área comercial, nas assets em especial, porque elas têm mais jeito para lidar com o cliente - diz.
Mulher tem que ser muito melhor para fazer sucesso - Patrícia Branco afirma que, assim como acontece no mercado corporativo, o receio de que a profissional engravide e fique fora do mercado ainda atrapalha na contratação e na ascensão.
- A mulher que deseja fazer sucesso nesse mercado tem que se mostrar melhor que os homens, tem que estudar mais que eles e falar bem pelo menos o inglês - aconselha.
A economista Cristina Dias de Souza, 48 anos, a primeira mulher a ser operadora da Bovespa, em 1984, não vê limitações hoje na atuação feminina no mercado financeiro, embora cite algumas dificuldades da época do pregão ao vivo.
- Trabalhar no pregão ao vivo foi uma experiência excelente, me deu uma bagagem muito boa. Mas, sem dúvida, havia algumas dificuldades. Não dá para competir na voz - conta.
Sacrifícios para ocupar as mesmas posições do homem - Há 25 anos nesse mercado, Cristina, cujo pai também trabalhou como corretor, fundou sua própria corretora, a Dias de Souza, e acredita que nem mesmo a maternidade pode atrapalhar a carreira.
- Voltei a trabalhar um mês depois do meu filho nascer porque precisava tocar o negócio. Ele ficou comigo até fazer um ano - relata.
- Nós mulheres queremos as mesmas posições e salários iguais, não podemos ficar afastadas - acrescenta, explicando que o fato do marido também ser do mercado financeiro facilita o entendimento em casa.
- Cada vez mais, eu vejo mulheres no setor financeiro. Elas já estão até no Megabolsa (sistema eletrônico de negociação onde as ofertas são inseridas em terminais remotos nas corretoras para serem vistas por todos) - conclui.
Fonte: G1 - Extra
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