
Os Estados Unidos, país cuja formação histórica foi profundamente marcada por migrações sucessivas, passaram a adotar uma política mais restritiva não apenas contra imigrantes em situação irregular, mas também contra estrangeiros que tentam seguir caminhos legais para permanecer no país.
A afirmação de que os Estados Unidos foram moldados pela imigração é historicamente sustentada. Antes da colonização europeia, o continente já era habitado por diversas comunidades indígenas, com culturas, organizações sociais e territórios próprios.
Também é factual que a formação dos Estados Unidos envolveu a espoliação de povos nativos. A própria Biblioteca do Congresso descreve o Indian Removal Act, aprovado em 1830, como uma medida que forçou povos indígenas a deixar suas terras e se deslocar para territórios a oeste do rio Mississippi. Portanto, o argumento sobre violência, perda territorial e exclusão dos povos originários tem base histórica, embora seja mais preciso dizer que os Estados Unidos foram formados por povos originários, colonização europeia, escravidão africana, migrações voluntárias e deslocamentos forçados.
O ponto mais atual do debate é a nova orientação do governo Trump, anunciada em 22 de maio de 2026, determinando que estrangeiros temporariamente nos Estados Unidos que desejem obter o green card deverão, como regra, retornar ao país de origem e fazer o processo por meio de representação consular, salvo em “circunstâncias extraordinárias”.
A Associated Press destacou que a mudança rompe com uma prática utilizada há mais de meio século, pela qual estrangeiros com status legal podiam concluir o processo de residência permanente dentro dos EUA. Ainda havia incertezas relevantes sobre a data exata de implementação, o impacto sobre processos já em andamento e quais categorias seriam mais afetadas.
Na prática, a alteração pode gerar impactos familiares, profissionais e acadêmicos. Um trabalhador estrangeiro empregado legalmente nos EUA, um estudante com oferta de trabalho, ou mesmo uma pessoa casada com cidadão norte-americano poderá ser orientada a deixar o país para processar o pedido no exterior, dependendo do caso. Especialistas ouvidos pela AP alertaram para riscos de separação familiar e de demora em consulados, sobretudo em países onde há restrições de visto, instabilidade ou ausência de serviços consulares norte-americanos.
É importante diferenciar green card de cidadania. O green card concede residência permanente legal, permitindo morar e trabalhar nos Estados Unidos. A cidadania, por sua vez, é obtida por naturalização, geralmente após um período como residente permanente. Segundo o USCIS e o governo dos EUA, o caminho mais comum exige pelo menos cinco anos como residente permanente; no caso de cônjuges de cidadãos norte-americanos, o prazo pode ser de três anos, desde que os demais requisitos sejam cumpridos.
No caso da cidadania, não há, até o momento, uma regra geral dizendo que todos os residentes permanentes terão de sair dos Estados Unidos para se naturalizar. A mudança mais diretamente comprovada afeta o processo de obtenção do green card por quem ainda não é residente permanente. Porém, houve endurecimento no processo de naturalização: o USCIS implementou, a partir de 20 de outubro de 2025, uma nova prova cívica para candidatos à cidadania, com 20 perguntas retiradas de um banco de 128 questões, exigindo 12 respostas corretas para aprovação.
Os Estados Unidos foram construídos por múltiplos fluxos migratórios, mas sua política migratória sempre alternou períodos de abertura, seleção, exclusão e restrição. A novidade do momento está no foco sobre imigrantes que já se encontram legalmente no país e que buscavam regularizar de forma permanente sua vida familiar, profissional ou acadêmica em território norte-americano.
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