
A procuradora do Ministério Público de Mato Grosso do Sul Jaceguara Dantas da Silva, especializada em direitos humanos e combate à discriminação em diversas áreas, aproveitou o período de quarentena durante a pandemia do coronavírus para refletir sobre sua trajetória pessoal e sua relação com as questões raciais. Mulher, negra, decidiu escrever um livro infantil sobre racismo, com a intenção de ajudar meninas no processo de aceitação e a enfrentar desafios ao crescer em uma realidade opressiva.
A ideia surge justamente da rememoração de momentos marcantes da infância, experiências e situações que ela mesma vivenciou e ainda não sabia muito bem como lidar. Pensando nas crianças negras que crescem atualmente, ela decidiu deixar a imaginação fluir e se aventurar na literatura infantil, abordando um assunto complexo e delicado mas com poder de transformar vidas.
"Criei uma menina negra, na infância, para que ela pudesse ajudar outras meninas a enfrentarem situações de racismo como as que passei. Acho importante transmitir a noção de como se colocar diante disso, como enfrentar e impedir que o racismo fira sua dignidade, autoestima e diminua seu valor como pessoa humana", explicou.
Intitulado "Os sonhos de Agatha", a publicação tem pretensão de preencher um espaço ainda pouco explorado na literatura infantil. Segundo Jaceguara, a ausência de materiais sobre os impactos da prática racista na infância é grande e pode ajudar não só crianças negras. A procuradora pensou também em professores lendo e discutindo a temática em salas de aula, desde cedo, para que crianças brancas também entendam as feridas provocadas pelo racismo.
"Acredito que todos precisam aprender a lidar com a pluralidade, diversidade e entender que não existe um viés único na vida, que podem ser negras, amarelas, cabelos ondulados ou crespos. Um material com essa abordagem é de extrema importância por oferecer uma noção de cidadania e ajudar as crianças negras a se sentirem pertencentes ao mundo e não uma pessoa a parte, excluída".
Filha de um pai negro e uma mãe branca, Jaceguara entendeu desde cedo as dificuldades que enfrentaria para trilhar seu caminho e perseguir seus sonhos. Dentre as experiências pessoais que inspiraram o livro, ela conta que sua vizinha e colega de escola, branca, só podia interagir com ela durante as aulas, pois a mãe da menina a proibia de brincar com a vizinha negra.
"Os sonhos de Agatha" já está pronto, mas Jaceguara ainda busca apoio de editoras para fazer a publicação. A intenção dela é colocar o livro nas ruas o mais rápido possível, mas caso não consiga viabilizar o projeto a curto prazo, a procuradora pretende buscar alternativas como um financiamento coletivo.
"Tenho muita esperança que essa ideia vai para frente, é um projeto inspirador, tenho a intenção de alcançar muitas crianças negras, ajudar na superação do racismo e no processo de autoafirmação. Tive um retorno incrível de uma criança de oito anos, questionando porque o racismo existe. Essas crianças no futuro serão adultos e eu acredito muito no potencial da educação. Quero contribuir para minimizar os impactos desse problema e estabelecer uma sociedade mais democrática", finalizou.
Fonte: Revista Época
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