A inflação acelerou e subiu 1,01% na passagem de janeiro para fevereiro, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira. É a maior taxa para o mês desde 2015, quando chegou a 1,2%%. Com o resultado, o indicador acumula alta de 10,54% em 12 meses.
O resultado veio acima do esperado. Analistas econômicos ouvidos pela Reuters projetavam alta de 0,95% para a inflação em janeiro e 10,50% para o IPCA em 12 meses.
Reajuste de mensalidades escolares
Os principais impactos no mês vieram do grupo Educação (5,61%) e Alimentação e Bebidas (1,28%). O gerente da pesquisa, Pedro Kislanov, explica que em fevereiro são incorporados os reajustes de cursos e escolas, praticados no início do ano letivo.
— Portanto esse foi o item que teve o maior impacto no mês, com peso de 0,31 ponto percentual. O outro grupo que pesou bastante no mês foi o de Alimentação e bebidas, que acelerou para 1,28% e contribuiu com 0,27 ponto percentual. Juntos, os dois grupos representaram cerca de 57% do IPCA de fevereiro — ressalta Kislanov.
Dentro do segmento Educação, o maior impacto veio dos cursos regulares, que subiram 6,67%. Ensino fundamental, pré-escola e ensino médio tiveram altas de 8,06%, 7,67% e 7,53%, respectivamente.
Também subiram os preços dos cursos de ensino superior (5,82%) e pós-graduação (2,79%). Os cursos diversos, por sua vez, tiveram alta de 3,91%, sendo que a maior variação dentro do item veio dos cursos de idioma (7,29%).
Chuvas e estiagens afetam produção de alimentos
O grupo Alimentação e Bebidas, que registra altas desde janeiro de 2020, sendo a única exceção o mês de novembro de 2021 (-0,04%), já acumula alta de 9,12% em 12 meses.
O segmento foi afetado em fevereiro pelos excessos de chuvas e também estiagens que prejudicaram a produção em diversas regiões de cultivo no Brasil.
— Destacam-se, em particular, os aumentos nos preços da batata-inglesa (23,49%) e da cenoura (55,41%). No caso da cenoura, as variações foram desde 39,26% em São Paulo até 88,15% em Vitória. Além disso, as frutas subiram 3,55% — assinala Kislanov.
Por outro lado, foram registradas quedas nos preços do frango inteiro (-2,29%) e do frango em pedaços (-1,35%), que também tiveram recuaram no mês anterior.
Já o grupo Transportes subiu 0,46% em fevereiro. A maior contribuição veio dos automóveis novos (1,68%), cujos preços subiram pelo 18º mês seguido. Os preços dos automóveis usados e das motocicletas também seguem em alta, com aumentos de 1,51% e 1,72%, respectivamente.
Outros destaques foram o seguro voluntário de veículo (3,24%), o conserto de automóvel (0,92%) e o ônibus urbano (0,45%), este último por conta dos reajustes nas passagens aplicados em várias regiões de abrangência do índice.
Reajuste dos combustíveis aumentará inflação
Os combustíveis, que fazem parte do grupo Transportes e acumulam alta de 33,33% em 12 meses, recuaram 0,92% em fevereiro. A queda se deve ao preço da gasolina que tem grande peso no índice e recuou 0,47%. Por outro lado, foram registradas altas nos preços do óleo diesel (1,65%) e gás veicular (2,77%).
Apesar do recuo no preço dos combustíveis em fevereiro, a perspectiva para o segmento não é animadora. O reajuste nos preços da gasolina, diesel e GLP, que passa a valer nesta sexta-feira nas refinarias e distribuidoras, já deve se refletir no IPCA nos meses de março e abril, segundo analistas.
Na avaliação de economistas, a inflação deve superar 7% no ano e pode chegar a 8% caso o conflito entre Rússia e Ucrânia se prolongue.
Isso porque os preços das commodities - desde o petróleo até os grãos, como soja e trigo - dispararam no mercado internacional, o que pode ampliar a defasagem dos combustíveis frente o preço no mercado doméstico e ensejar novos reajustes, bem como afetar as produções agrícolas brasileiras e elevar os preços ao consumidor, em última instância.
Desafio para o Banco Central
O indicador oficial de inflação permanece acima de 10% anuais pelo sexto mês seguido, o que aponta, segundo analistas, para um desafio a ser enfrentado pelo Banco Central quanto ao processo de conter a pressão inflacionária, causada sobretudo por choques externos.
O caráter de disseminação e persistência da inflação tem feito bancos e consultorias elevarem as projeções para a Selic, taxa básica de juros da economia.
O banco francês BNP Paribas elevou sua projeção de 6% para 7% para o IPCA em 2022, e agora prevê uma alta da Selic de até 13,25%, ante estimativa anterior de 12,25%.
o J.P. Morgan espera que a Selic suba até 12,75% ante expectativa de que o juro básico terminasse o processo de aperto em 12,25%.
Fonte: O Globo