
A francesa Nathalie Lidgi-Guigui é pesquisadora em um laboratório de Física da Sorbonne, na região parisiense. Especialista em nanomateriais, ela pega o trem de subúrbio para trabalhar todos os dias, não aderiu ao home-office e nem deixou de frequentar restaurantes.
Casada, e com dois filhos na escola, toda a família já havia sido contaminada pelo vírus antes. Os testes da francesa, porém, sempre foram negativos. Nathalie também acredita que possa ter contraído a Covid-19 em janeiro, em 2020, quando não havia testes, máscaras ou outros tipos de cuidado para evitar a transmissão.
Mas, hoje, já se sabe que imunidade humoral, a dos anticorpos, proporcionada pela infecção natural, dura pouco. “Cerca de um ano depois, eu fiz um teste para saber se eu tinha pego, mas ele deu negativo, eu não tinha anticorpos”, conta.
Durante o ano de 2021, antes e depois de se vacinar com as três doses, Nathalie também nunca precisou se testar.
“Eu tomo cuidado, não almoço no restaurante da empresa, prefiro comer sozinha, mas isso não me impede de ir ao restaurante com minha família. Pego o trem todos os dias, uso máscara, tento abrir a janela, mas não vivo fechada em casa”, relata. Nathalie testou positivo para a Covid-19 há apenas poucos dias, depois de quase dois anos de pandemia, e teve sintomas leves.
Casos como o de Nathalie não são isolados. Durante a crise sanitária, histórias de pessoas que moram com contaminados e não tiveram um teste positivo se tornaram comuns.
O que a ciência sabe sobre esses sortudos, que resistem melhor à infecção ou são assintomáticos? No início de janeiro, um estudo publicado por um grupo de pesquisadores do Imperial College London mostrou que, quanto maior o nível de células T que haviam sido estimuladas por diferentes tipos de coronavírus, que provocam resfriados, menor era a probabilidade de contrair o SARS-CoV-2.
A RFI Brasil conversou sobre esse assunto com o cientista Laurent Abel, diretor de pesquisa do Inserm (Instituto de Pesquisas Médicas da França) e codiretor do Laboratório de Genética Humana de Doenças Contagiosas do Instituto francês Imagine, que estuda a predisposição genética ligada às formas graves da Covid-19. O objetivo da equipe é identificar os principais genes humanos que criam resistência ou que controlam a resposta à infecção gerada por diferentes micróbios.
Segundo ele, a maioria das pessoas não vai escapar da contaminação em situações de alto risco, mas outras vão eliminar o vírus antes que ele penetre nas células.
“Esse é um fenômeno que já foi descrito em outras doenças contagiosas. Provavelmente a mais representativa é a resistência à infecção pelo HIV”, exemplifica.
Nos anos 90, os pesquisadores identificaram indivíduos que, mesmo com um comportamento de risco, com múltiplos parceiros, inclusive positivos, não contraíam a doença. Essa resistência é ligada à mutação de um gene, o CCR5, um dos principais receptores do HIV, que bloqueava ou impedia a entrada do vírus nas células.
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