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#Filhosnocurrículo: De volta ao mercado após virarem mães, mulheres querem fim da escolha entre família e carreira

#Filhosnocurrículo: De volta ao mercado após virarem mães, mulheres querem fim da escolha entre família e carreira

29/11/2021 às 09h50 Atualizada em 29/11/2021 às 12h50
Por: Redação
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Na esteira de consultorias e incubadoras de start-ups puxadas por mulheres que viraram mães, está Michelle Terni, da Filhos no Currículo, consultoria voltada para a (re)inserção de mães no mercado de trabalho Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Na esteira de consultorias e incubadoras de start-ups puxadas por mulheres que viraram mães, está Michelle Terni, da Filhos no Currículo, consultoria voltada para a (re)inserção de mães no mercado de trabalho Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Elas investem em consultorias e start-ups que levam ao mundo corporativo um novo olhar sobre trabalho e maternidade

Por muito tempo, boa parte das mulheres seguiu o mesmo script: investem e avançam na profissão, aí vêm os filhos — outro projeto que abraçam com afinco — e a carreira para. Ou o mercado se fecha. E percebem que falta empatia em relação a elas, profissionais que viram mães.

No entanto, recentemente esse tipo de roteiro começa a ganhar novos desfechos com o protagonismo de mulheres que, depois da transformação da maternidade, resolveram transformar o mundo corporativo. Com elas, florescem consultorias e aceleradoras de start-ups nas quais atuam mães que, entre carreira e família, escolhem as duas.

A maioria desses negócios surgiu nos últimos seis anos ou menos e se expande com o apelo crescente de um mercado mais inclusivo e com equidade de gênero.

Com a pandemia, houve um salto. Quando, para quem teve essa opção, o trabalho foi para casa, crianças reviraram a rotina, apareceram nas videoconferências e a maternidade saiu do armário.

— A pandemia escancarou as dores e os desafios que transpareciam só nas olheiras das mães, e não deu para disfarçar mais. Os homens também viveram isso com as crianças em casa. O desempenho de equipes foi afetado. Por outro lado, motivou as pessoas a falarem muito mais do tema — diz Daniela Scalco, fundadora da start-up parentsIN.co.

Daniela entrou duas vezes para as estatísticas mais comuns sobre mulheres e trabalho. Saiu do mercado depois de ter filhos — o que acontece após 24 meses com quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Ao retornar, decidiu empreender — 75% das empreendedoras decidiram ter negócio próprio depois de virarem mães, mostra levantamento do Instituto Rede Mulher Empreendedora.

Negócio é uma saída

A parentsIN.co é o “terceiro filho” de Daniela, mãe de dois meninos, de 8 e 6 anos. A start-up nasceu em 2019 justamente com a meta de trazer mil mulheres de volta ao mercado em três anos.

A empresa faz a ponte entre empresas e profissionais que buscam viver carreira e filhos juntos. A demanda, diz, tem crescido dos dois lados. E as contratadas viram porta-vozes da causa na nova posição.

— Uma coisa que me chamava a atenção era que muitas mães que começam a empreender faziam isso não porque queriam, mas porque não conseguiam retornar ao mercado. Não era possível que não existisse um caminho de volta — relembra Daniela. — Muitas mulheres querem voltar, e querem voltar em lugares que compartilhem dos mesmos valores, que entendam e deem valor à rotina dessas mães.

As redes sociais também têm amplificado esse movimento. Entre postagens no LinkedIn sobre exaustão e como a pandemia fez retroceder a patamares de 30 anos atrás a participação das mulheres em um mercado de trabalho já desigual, a campanha #meufilhonocurrículo viralizou mês passado com essa hashtag.

A sacada foi da consultoria Filhos no Currículo, que convidou mães e pais a contarem as habilidades adquiridas com o nascimento dos filhos como potências profissionais.

— Foram mais de 40 mil interações no início da campanha. Conseguimos entrar em fóruns e discussões onde isso não estava em pauta e trazer o tema para reflexão em um momento de planejamento para 2022, quando empresas estão repensando políticas, benefícios e metas de equidade — diz Michelle Terni, CEO e cofundadora da Filhos no Currículo.

Seu enredo também é comum a muitas mulheres: depois dos dois filhos, que hoje têm 6 e 4 anos, Michelle repensou vida e trabalho. Deixou o emprego em uma multinacional para se dedicar ao papel de mãe.

Movida pelas reflexões da maternidade, debruçou-se sobre o impacto da chegada dos filhos na carreira de mulheres. Conheceu a sócia e também mãe Camila Antunes, e aí os scripts se misturaram. A Filhos no Currículo nasceu em 2018 e ajuda empresas a construírem um ambiente pró-família e acolhedor a mães e pais.

— Precisamos trazer isonomia para essa conversa. E parte da solução é envolver todos que têm um papel parental, mães e pais — diz Michelle. — O exercício diário da parentalidade é um convite a nos revisitarmos e a fazer um trabalho de desenvolvimento pessoal. Quando as empresas criam um ambiente que acolhe essa transformação, têm pessoas mais felizes trabalhando — afirma Michelle.

A ausência desse espaço, por outro lado, leva mães a buscar outras alternativas. Uma pesquisa da Filhos no Currículo com a Talenses Group com 742 mães que trabalham mostrou que 60,7% fizeram um curso de capacitação e 44,8% participaram de um processo seletivo durante a pandemia.

— Quatro em cada dez mulheres repensando sua carreira é muito — analisa Michelle. — E tem a ver com esse movimento de saída. Como mães, essas mulheres passam por um momento de gatilho em que começam a buscar trabalhos que entreguem propósito, realização.

Do lado das empresas, ignorar esse movimento pode resultar também em perda de talentos.

— Não basta só revisar políticas da empresa, como licença parental, licenças estendidas, que são benefícios importantes, se não existe também uma cultura de liderança que acolha essas políticas para serem vividas na prática — completa Michelle.

Movimento sem volta

Quando começou com a B2Mamy, aceleradora de start-ups para mães, em 2015, o terreno era pouco explorado, lembra a CEO Dani Junco.

— Quando fui no primeiro evento sobre inovação, disseram que ser mãe e ter uma start-up era impossível. Saímos de 80 mulheres em 2015 para 50 mil na nossa rede, se relacionando, estudando, comprando, recebendo dinheiro. Hoje as empresas aportam capital para falar sobre inclusão. O olhar do feminino está entrando na cultura corporativa — compara Dani.

As consultorias a empresas representam metade do faturamento atual da B2Mamy, diz a empresária.

— Entrou uma agenda ESG forte, e as empresas estão sendo cobradas por isso, inclusive financeiramente. É um movimento sem volta.

Dani Junco, CEO da B2Mamy, aceleradora de startups para mães Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo
Dani Junco, CEO da B2Mamy, aceleradora de startups para mães Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo

Para ela, o sucesso de negócios criados por mães para mães está ligado à própria experiência da maternidade.

— Meu caso é o de quase todas as mulheres que chegaram até aqui. É aquele sentir que depois da maternidade não me encaixo mais, não caibo mais. Eu me expandi. Tem muito desse lugar de potência que meu filho deu — conta ela, mãe de um menino de 6 anos. — E, a não ser que o mundo acabe, vão continuar nascendo crianças. É preciso normalizar a maternidade de uma vez por todas.

Apesar dos avanços, o caminho ainda é longo, opina Vivian Abukater, sócia-diretora da Maternativa. A empresa nasceu em 2015 como grupo no Facebook, em que mães falavam sobre trabalho. Dois anos depois, virou negócio social com três pilares de atuação: apoio para mães empreendedoras, consultorias para empresas e marcas e ativismo pela divisão justa do trabalho não remunerado.

A comunidade no Facebook ainda existe e reúne 27 mil mães. De lá para cá, diz Vivian, o alcance do tema entre as empresas cresceu, mas ainda restrito às grandes corporações.

— É uma pauta que circula mais intensamente em uma parcela da população, e em uma parcela ainda menor que reverbera dentro das empresas. As multinacionais no Brasil têm políticas de diversidade e inclusão que vêm de outros países. Mas nas médias e pequenas empresas, que são grande parte da economia nacional, essa pauta ainda está começando.

E complementa:

— Na grande massa das empresas, organizações e pessoas, ainda existe uma disparidade muito grande, e um caminho gigantesco para ser percorrido — afirma Vivian, mãe de dois meninos, de 10 e 6 anos.

É nesse momento, completa, que o engajamento de diversos atores se faz mais urgente: o governo, garantindo leis que beneficiem as famílias, um setor privado cada vez mais receptivo, e a sociedade, onde o tema é cada vez mais latente. Afinal, diz Vivian, esse é um tema que não diz respeito só às mães.

— Está na moda falar que as soft skills ficam mais aprimoradas com a chegada dos filhos, que nos fazem desenvolver empatia, capacidade grande de priorização, aumentam a produtividade. Mas também ganhamos conexões cerebrais fortes, que podem colaborar para a tomada de decisões acertadas, para o que uma empresa pode melhorar do ponto de vista de estratégias ou do bem-estar de uma equipe — enumera.

— Mas são vantagens só das mulheres? Definitivamente não. Pais que se envolvem afetivamente no cuidado de crianças também podem desenvolver essas habilidades. Não é uma questão de gênero, mas de até onde permitir que essas transformações aconteçam com você.

Fonte: O Globo

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