Em setembro, sob o título "Os arquivos do Facebook", o Wall Street Journal começou a publicar uma série de artigos bombásticos com base em documentos internos do Facebook que um denunciante (então anônimo) vazou para o jornal, para Securities and Exchange Commission (SEC, a Comissão de Valores Mobiliários americana) e membros do Congresso dos EUA. Uma das reportagens citou uma pesquisa não publicada feita pela própria empresa sugerindo que “o Instagram é tóxico para meninas adolescentes”; outra contou como, mesmo quando Mark Zuckerberg prometeu usar o Facebook para ampliar “informações confiáveis sobre Covid-19”, as postagens eram seguidas por comentários anti-vacina.
No mês seguinte, em uma entrevista ao programa de TV dos EUA "60 Minutes", descobriu-se que a pessoa que vazou os documentos ao Journal se chamava Frances Haugen e era uma ex-funcionária do Facebook — hoje rebatizado de Meta. Ainda em outubro, Haugen testemunhou perante uma subcomissão do Senado, onde contou o que a mídia americana costuma resumir como "aquilo que os funcionários do Facebook/Meta conversam entre si quando ninguém está olhando".
Haugen disse ao Congresso americano, entre outras coisas, que o Facebook trabalha com algoritmos que incentivam discórdia e que isso muitas vezes mata; que suas ferramentas são projetadas para criar dependência e aumentar o consumo; que pouco fazem para controlar o crime organizado e que é mentira que tratem igualmente seus mais de 3 bilhões de usuários. E confirmou a angústia e os pensamentos suicidas de adolescentes nas plataformas da empresa.
Insatisfeita com a repercussão, Haugen vazou os documentos para outros jornalistas — repórteres de cerca de duas dúzias de organizações de notícias tão diversas como a Associated Press, CNN, Le Monde, Reuters, The New York Times e, no Brasil, Folha de S. Paulo e O Estado de S .Paulo, entre outros. Este consórcio, batizado de "Facebook Papers", segue recebendo um fluxo aparentemente interminável de documentos em sua pasta no Google Drive. Na revelação mais recente, em entrevista à Folha, Haugen disse que os sistemas de inteligência artificial que detectam conteúdos nocivos e potencialmente virais no Facebook não funcionam em outras línguas que não inglês, francês e espanhol. E que não é à toa que o Brasil é classificado como "lugar sensível" para estes tipos de conteúdos. "Desconfio que o português do Brasil não seja bem amparado pelos sistemas de segurança", afirmou.
Para quem estiver curioso sobre os bastidores dos "Facebook Papers", o portal Protocol decidiu publicar tudo o que já saiu a respeito em inglês. São várias reportagens, incluindo relatos desde casos em que a Meta tomou decisões baseadas no humor da política do Hemisfério Norte até a dificuldade do Facebook de contratar engenheiros. A revista The New Yorker fala da dificuldade do consórcio manter suas promessas de publicações conjuntas e fala até no fim da parceria, mas os artigos continuam saindo. A revista Wired faz até um pedido: que o consórcio seja integrado por mais veículos de países emergentes e pobres, onde a influência do Facebook pode até eleger presidentes.
Nick Clegg, um político britânico que virou porta-voz da Meta, faz uma provocação em defesa do Facebook como plataforma de comunicação. Ao jornal The Wall Street Journal, ele diz: "Como acontece com qualquer fenômeno cultural generalizado, os "Facebook Papers" ocasionaram uma reação negativa ou, pelo menos, uma pequena rodada de reconsiderações. O Instagram é realmente mais tóxico do que a TV ou as revistas, ou os tamanhos de amostra dos estudos são muito pequenos para fazerem sentido? É realmente culpa de Zuckerberg que suas postagens pró-vacina tenham sido invadidas por comentários anti-vacina ou isso é um subproduto necessário para capacitar todos a participarem do mercado de ideias? A mídia social está sendo responsabilizada por questões que são muito mais profundas na sociedade",
Quando Zuckerberg anunciou o novo nome da empresa, seu metaverso e a realidade alternativa como o futuro da companhia, Haugen voltou a alertar sobre os perigos de uma realidade 100% virtual e seu poder de roubar dados pessoais e distorcer ainda mais a visão de mundo das pessoas.
Fonte: Agência Lupa | <lupa@lupa.news>
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