
As Forças Armadas do Sudão prenderam nesta segunda-feira o primeiro-ministro do país, Abdallah Hamdok, e as principais autoridades civis em um golpe de Estado que põe em xeque a frágil transição democrática no país africano. Protestos foram imediatamente registrados nas ruas do país, com relatos de disparos e pessoas feridas.
De acordo com Abdel Fattah al-Burhan, general que comandou o Conselho Soberano de Transição, formado por civis e militares após a queda do ditador Omar Bashir, em 2019, os militares tomaram o controle do país e dissolveram o governo de transição. Afirmou também que ficarão no poder até julho de 2023, quando haverá novas eleições.
Hamdok desapareceu pela manhã, pouco antes do Ministério da Cultura e Informação emitir um comunicado afirmando que ele e sua mulher haviam sido sequestrados e levados para um lugar desconhecido. De acordo com o órgão, aparentemente ainda sob comando de aliados, o premier estava sob prisão domiciliar e foi transferido após se recusar a soltar uma nota "pró-golpe".
O Ministério, que também pediu resistência popular à tomada de poder, disse ainda que vários ministros e integrantes civis do Conselho Soberano de Transição foram detidos, mas o número exato ainda não está claro. O grupo tinha como objetivo preparar o país para eleições populares no ano que vem.
Em Cartum, grupos da sociedade civil convocaram a população para manifestações e, de acordo com aliados do governo recém-dissolvido, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas. Imagens de emissoras locais mostram pneus sendo queimados e tiros foram disparados contra opositores perto do quartel-general das Forças Armadas. Em um comunicado divulgado no Facebook, um comitê médico local disse que há ao menos 12 pessoas feridas.
O aeroporto internacional de Cartum foi fechado, o acesso a internet foi cortado e a televisão estatal transmite músicas patrióticas. De acordo com a imprensa local, os militares também fecharam pontes. Uma greve geral está sendo convocada pela Associação de Profissionais do Sudão, principal coalizão civil no levante contra Bashir, que governou o país de 1989 a 2019.
"A revolução é uma revolução do povo", disse o grupo, formado por médicos, engenheiros e advogados, em uma postagem no Facebook. "Poder e riqueza pertencem ao povo. Não a um golpe militar".
A manobra militar vem a dias da data prevista para que o chefe das Forças Armadas tranferisse o comando do Gabinete de governo para Hamdok, em novembro, dando-lhe controle de um posto majoritariamente cerimonial. Seria, contudo, a primeira vez que o país estaria completamente sob controle civil pela primeira vez em décadas.
Temores de um golpe permeavam Cartum desde a queda de Bashir, em 2019, mas se acentuaram nos últimos meses, tensionando ainda mais o acordo de partilha de poder. Um ponto de ebulição, contudo, veio no mês passado, quando as autoridades conseguiram conter uma tentativa de golpe de aliados do ex-ditador, desencadeando a pior crise política no país desde o início do governo de transição.
Integrantes civis do Executivo vinham alertando que o Exército almejava fomentar a instabilidade no país, semeando a discórdia em seus quadros com o fim de criar um ambiente positivo para a tomada de poder. Um grupo muito próximo aos militares, mas oficialmente parte das Forças de Liberdade e Mudança, que encabeçaram os protestos que culminaram na queda de Bashir, se dividiu nas últimas semanas, formando uma aliança que poderia dar certo endosso civil aos militares.
Desde o último sábado, centenas de pessoas estiveram nas ruas de Cartum para pedir que os militare tomassem o poder, en um protesto tomado por incertezas após imagens que mostram a distribuição de dinheiro e comida tomarem as redes sociais. No último dia 11, o Facebook derrubou uma rede com centenas de páginas vinculadas às Forças de Apoio Rápido, uma grupo paramilitar que usava a plataforma como ferramenta para manipular a opinião pública a favor de um retorno do Exército ao poder.
Lideranças civis, por sua vez, também mostravam-se cada vez mais impacientes com a resistência dos militares para realizar uma reforma profunda das instituições de segurança pública, incluindo suas contas, e submetê-las ao controle civil. Também eram críticas da obstrução das Forças Armadas em questões-chave como a investigação dos crimes cometidos pelos militares após a queda de Bashir e a cooperação com o Tribunal Penal Internacional em sua investigação sobre o genocídio em Darfur, que pode afetar alguns de seus líderes. (Com El País e agências internacionais)
Fonte: O Globo
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