
Na última semana, o veto do presidente Jair Bolsonaro ao projeto de lei que previa distribuição gratuita de absorventes para mulheres em vulnerabilidade social acendeu nas redes (e fora delas) a discussão sobre pobreza menstrual. O termo, cunhado na França, se refere aos efeitos da falta de informação e de acesso a produtos básicos de higiene durante o período da menstruação. A decisão de Bolsonaro vai na contramão de outros lugares no mundo, como a Escócia, que no fim do ano passado se tornou o primeiro país a fornecer produtos menstruais gratuitos em todas as escolas e universidades. A Califórnia também acabou de adotar a medida, que entra em vigor no próximo ano letivo em toda a rede de educação (por lá, desde 2017, o material já é fornecido em escolas de baixa renda). Já aqui, 713 mil brasileiras, de 10 a 19 anos, vivem sem banheiro ou chuveiro em casa, e mais de 4 milhões não têm acesso a recursos para cuidados durante o ciclo, segundo levantamento da Unicef. Enquanto o governo lava as mãos para o problema, agravado durante a pandemia, jovens mulheres resolveram arregaçar as mangas e ajudar por conta própria. Após a polêmica, vários estados e municípios anunciaram programas de doação de absorventes, entre eles a Prefeitura do Rio.
“O acesso a esses itens é uma questão de saúde pública e deveria ser um direito, não um luxo ou privilégio”, argumenta a estudante carioca Constanza Del Posso, de 17 anos, idealizadora do projeto Absorvendo Amor, que já doou mais de 150 mil absorventes a cerca de 8 mil meninas. Aluna do colégio Eleva e moradora da Gávea, Constanza se deparou com a questão no livro “Eleanor & Park”, da escritora norte-americana Rainbow Rowell, que narra um episódio de bullying com uma personagem que fica menstruada na escola. “Aquilo me marcou muito e fiquei chocada como ninguém falava sobre isso. Descobri que era um problema gigante”, conta. Em 2018, montou um grupo com 14 colegas e começou uma campanha local para arrecadação e distribuição de absorventes, principalmente em escolas públicas. “Uma em cada quatro meninas brasileiras da rede pública falta aula por não poder comprar absorvente, e pode perder em média 45 dias. É quase um quarto do ano letivo”, justifica.
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Constanza Del Posso Foto: Divulgação[/caption]
Estudante do ensino médio e moradora de Granja Viana, na Grande São Paulo, Luana Escamilla, de 17 anos, foi apresentada ao termo pobreza menstrual no ano passado, quando assistiu ao documentário “Absorvendo Tabu”. O curta da americana Rayka Zehtabchi, vencedor do Oscar em 2019, aborda o estigma da menstruação na Índia por meio de um grupo de mulheres sem acesso a produtos de higiene que consegue a doação de uma máquina para fabricar absorventes biodegradáveis de baixo custo. “Fiquei muito tocada e resolvi pesquisar sobre o assunto no Brasil. Foi uma quebra da minha bolha pensar que alguém poderia passar por uma situação tão desumana”, conta a criadora do Fluxo Sem Tabu, que propõe democratizar o acesso ao conhecimento e à higiene íntima. Sozinha, ela aprendeu a fazer um site, criou uma campanha de conscientização e arrecadação e cuida de toda a estratégia. Para a montagem e distribuição dos kits, conta com a ajuda de cerca de 700 voluntários. Já conseguiu doar 180 mil absorventes e ouviu relatos como o de uma moradora de rua que disse que ficar sangrando debaixo do viaduto com cólica era sua rotina. “É importante falar também sobre como a pobreza menstrual tem relação com a evasão escolar. A falta de informação leva a vergonha, isolamento e ao uso de métodos inseguros, como jornal, papel higiênico, folhas, panos velhos e até miolo de pão, o que acaba acarretando em problemas de saúde.”
Esta ilustração, criada por Mayara Lista, é uma das artes do projeto Fluxo Sem Tabu, estudante Luana Hasson De Lima Escamilla, de 17 anos Foto: Divulgação.
Com a doação de absorventes, calcinhas, sutiãs e outros itens de higiene no Rio e em Niterói, o projeto Tô de Chico surgiu há três anos a partir de uma conversa num domingo à tarde entre a engenheira de produção Talita Soares, de 24 anos, e a namorada, a geógrafa Carolina Chiarello, de 27. “Uma de nós estava menstruada, comentamos sobre o incômodo e percebemos como éramos privilegiadas”, diz Talita. Elas recolhem os donativos e distribuem cerca de 200 kits mensais a pessoas em situação de rua, ONGs parceiras e ao próprio SUS. “Nossa principal meta é quebrar o tabu em torno do assunto. Somos governados majoritariamente por homens que, por ser um ‘problema feminino’, não dão a devida atenção. A pobreza menstrual vai além da falta de absorvente, que é o mínimo que deveria ser garantido”, acredita Talita.
Fonte: Jornal O Globo
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