
“Eles estão matando pessoas”. Foi assim, com uma única e duríssima frase, que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, respondeu na sexta-feira passada (16) ao repórter que lhe pediu que mandasse uma mensagem para “plataformas como o Facebook”. Desde o início desta semana, a Casa Branca vem dando sinais claros de que entra - de cabeça - na luta contra as notícias falsas e antecipa: as mentiras sobre as vacinas contra a Covid-19 estão na mira.
A declaração repercutiu de todas as maneiras possíveis. Tanto que o próprio Biden teve que vir a público novamente na segunda-feira para esclarecer que ele não quis dizer que o Facebook, a plataforma em si, estivesse matando gente, mas as pessoas que postam desinformação sobre a vacina, sim. Mas o presidente americano trouxe outros pontos de vista. E citou um relatório do Center for Countering Digital Hate (CCDH), uma organização não governamental que pesquisa discursos de ódio, dando conta de que a grande maioria das teorias de conspiração e desinformação anti-vacinas sobre Covid-19 originou-se de apenas 12 pessoas.
A CCDH descobriu em março que essas 12 personalidades online - que eles apelidaram de "dúzia da desinformação" — têm um conjunto de 59 milhões de seguidores em várias plataformas de mídia social, com o Facebook sendo o lugar de maior impacto. A ONG analisou 812.000 postagens e tweets no Facebook e descobriu que 65% vieram de uma dúzia de desinformadores. Entre os doze estão médicos que adotaram práticas consideradas como pseudociência, um fisiculturista, um blogueiro de bem-estar, um fanático religioso e, o mais conhecido, Robert F. Kennedy Jr, sobrinho de John F. Kennedy, que também vinculou vacinas ao autismo e redes celulares de banda larga 5G à pandemia do coronavírus. E teve sua conta removida do Instagram.
Na mesma terça, soubemos que a Casa Branca está regularmente em contato com a Fox News e outras redes da TV — especialmente as mais conservadoras — sobre a cobertura da pandemia. "Temos entrado em contato com todas as redes e muitos, muitos meios de comunicação sobre a cobertura da Covid-19 para garantir que as pessoas tenham informações precisas", disse a secretária de imprensa da Casa Branca Jen Psaki.
E por que tudo isso é relevante? Porque a Casa Branca está deixando claro que toma um caminho oposto ao que as lideranças brasileiras estão mostrando atualmente. Enquanto no Brasil, acumulam-se projetos de lei que buscam impedir a remoção e/ou a moderação de conteúdo, o governo americano urge que as redes sociais e as plataformas de tecnologia sejam mais ativas.
Para o governo Biden, é importante que as redes sociais “se comprometam a fazer investimentos de longo prazo na luta contra desinformação, incluindo mudanças em seus produtos”. A Casa Branca chega a sugerir que os algoritmos sejam redesenhados de forma a não ampliarem notícias falsas. Também pede que haja mais pontos de atrito capazes de reduzir o compartilhamento de informações falsas. Nesse quesito, entrariam mais notificações e alertas.
Washington também quer mais transparência. Em seu relatório, Vivek Murthy, o cirurgião-geral da Casa Branca — maior autoridade de saúde entre os militares — pede que as redes sociais compartilhem dados de forma transparente com pesquisadores e acadêmicos para que eles possam analisar o alcance e o impacto das notícias falsas. E, numa pegada mais internacional, pediu às plataformas a darem mais atenção a outros idiomas — que não o inglês. “As plataformas devem aumentar as equipes que fazem moderação de conteúdo em diversas línguas e melhorar a inteligência artificial para além do inglês, já que a desinformação em outros idiomas continua proliferando”, registrou Murthy.
A decisão da Casa Branca de ir para a guerra contra a desinformação sanitária tem estreita relação com o avanço da variante Delta, do novo coronavírus, e com um dado alarmante apresentado na coletiva do governo: “Segundo pesquisas, dois terços das pessoas que ainda não se vacinaram (nos Estados Unidos) acreditam em mitos sobre as vacinas contra a covid-19 ou acham que alguns desses mitos podem ser verdadeiros”, lamentou o cirurgião-geral.
Mas e como esse posicionamento do governo Biden pode afetar o Brasil? Especialistas ouvidos pela Lente destacam que ele coloca o país em xeque. “No Brasil, há uma pressão muito grande para impedir a moderação de conteúdo, ou seja, a pressão é no sentido contrário ao feito pelo governo Biden”, diz Caio Machado, diretor do Instituto Vero. “Vimos recentemente o Eduardo Bolsonaro, deputado e filho do presidente, falando sobre decreto para impedir remoção de conteúdo. Então estamos numa encruzilhada”. “Depois do Trump, o Brasil está vendo uma inversão total, de dizer que a plataforma não pode fazer nada. O conteúdo tem que ficar lá até que um juiz se manifeste. Usuário não pode jamais ser removido de uma plataforma sem que um juiz determine”, ressaltou Diego Canabarro, Senior Policy Manager para América Latina da Internet Society.
Por Gilberto Scofield Jr
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