
Os investigadores tiveram acesso a mensagens do celular da mãe de Henry. Segundo o Ministério Público, as conversas indicam que o menino vivia uma rotina de violência.
Alguns detalhes do comportamento da mãe de Henry chamaram a atenção dos investigadores. No celular dela, a polícia encontrou uma selfie tirada na delegacia no dia que Monique Medeiros prestou depoimento. Eles também descobriram que, no dia seguinte ao enterro do filho, Monique foi a um salão de beleza fazer pé, mão e cabelo.
A investigação teve acesso a mensagens trocadas entre ela e a babá que cuidava do menino, Thayná Ferreira. Estavam em celulares apreendidos. Segundo os policiais, a conversa é do dia 12 de fevereiro de 2021, três semanas antes da morte de Henry.
Às 16h30, a babá diz que Jairinho chamou Henry para o quarto, trancou a porta e aumentou o som da televisão. As duas demonstram preocupação.
Thayná: Aí logo depois Jairinho chamou ele para ver que comprou algo. Aí ele foi para o quarto.
Monique: Estou apavorada. Jairinho não falou que ia para casa.
Monique pede à babá: "Bate na porta." Thayná diz que eles não respondem e que só escuta o barulho de desenho animado na TV. Ela diz: “Acho melhor você vir.”
Monique fala para ela entrar no quarto mesmo assim. Mas a babá responde: “Fico com medo do Jairinho não gostar da invasão. Pera, vou tentar abrir a porta.”
Monique afirma: “Ele não tem que gostar de nada.” A babá fala: "Abriu a porta do quarto.”
A babá manda uma foto com o menino no colo.
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A babá Thayná Ferreira manda uma foto com o menino Henry no colo — Foto: Reprodução/Jornal Nacional[/caption]
A mãe pergunta: “Deu ruim? Sabia. Pergunta tudo. Pergunta o que o tio falou.” Thayná fala: “Então agora não quer ficar na sala sozinho.”
Monique sugere: “Pergunta se ele quer vir pro shopping.” Thayná fala: “Ele quer que eu fique sentada ao lado dele só.” Monique responde: “Coitado do meu filho. Se eu soubesse nem tinha saído.”
Ela pede para a babá perguntar a Henry o que Jairinho falou com ele. E Thayná responde: “Jairinho tá aqui perto. Depois pergunto.”
Thayná se mostra preocupada com a presença de Jairinho: “Acho que prestando atenção no que eu to fazendo.” E Monique diz: “Ok. Daqui a pouco você me fala.” Thayná responde: “Aí disfarço.”
Depois, a babá afirma que o menino não quer sair do colo e que está machucado: “Tá reclamando que o joelho está doendo.”
Thayná diz que Henry só responde que não aconteceu nada. E Monique afirma: “Então aconteceu. Vou descobrir quando chegar.”
De acordo com as mensagens, Thayná sugere flagrar Jairinho: “Você um dia falar que vai demorar na rua e ficar aqui em algum lugar escondida e chegar do nada.”
Monique pergunta: “Ele foi pro nosso quarto ou do Henry?”. E Thayná responde: “Para o seu quarto.” Monique diz: “Eu vou colocar micro câmera”. E Thayná acrescenta: “E sempre no seu quarto.”
Em uma das mensagens, Thayná fala que a situação não está normal e diz: “E eu tenho medo porque cuido dele com muito amor e tenho medo até dele cair comigo. Aí não sei o que Jairinho faz quando chega, depois ele tá machucado, sei lá.”
Depois, Monique diz que recebeu uma ligação de Jairinho. “Alguma coisa estranha mesmo. Jairinho me ligou dizendo que chegou agora em casa.” E a babá responde: “Já chegou um tempão.” Thayná diz que Jairinho saiu e então começa a contar o que Henry disse da agressão.
Segundo a babá, o menino falou que levou uma rasteira e foi chutado por Jairinho. Ela diz: “Então me contou que deu uma banda e chutou ele, que toda vez faz isso, que fala que não pode contar, que ele perturba a mãe dele, que tem que obedecer ele, se não vai pegar ele.”
Ela diz a Monique que combinou com Henry: “Toda vez que Jairinho chegar e você não tiver eu vou chamar ele pra brinquedoteca e ele vai aceitar ir, porque estou aqui pra proteger ele.”
A babá manda um vídeo mostrando as pernas de Henry e afirma: “Tá mancando.” Monique pergunta: “A porta do quarto estava aberta ou fechada quando Henry entrou no quarto?” A babá responde: “Quando Henry entrou estava aberta, depois ele fechou. E daí ficou até aquela hora com a porta fechada.”
A babá afirma que Henry se queixa de dor na cabeça: “Henry tá reclamando da cabeça. Pediu ‘tia, não lava não. Tá doendo.'"
Monique reage: “Meu Deus, como assim?! Pergunta tudo, Thayná. Será que ele bateu a cabeça?”
Depois, Thayná envia foto do joelho do menino para Monique e conta: “Ele disse que foi quando caiu, que a cabeça ficou doendo.”
Para o delegado responsável pelo caso, as mensagens comprovam que a mãe de Henry mentiu no depoimento à polícia.
“O print foi retirado no dia 12 de fevereiro deste ano, quase um mês antes do crime. A mãe não comunicou à polícia, a mãe não afastou o agressor do convívio de uma criança de 4 anos, filho dela. É importante que se diga que ela tem uma obrigação legal de fazer isso. Não se trata simplesmente de uma obrigação moral, é uma obrigação legal. Depois que veio o pior resultado possível de uma rotina de violência, que é justamente a morte do Henry, ela esteve em sede policial, em depoimento por mais de 4 horas apresentando uma declaração mentirosa, protegendo o assassino do próprio filho”, declarou o delegado da Polícia Civil-RJ, Henrique Damasceno.
A polícia também investiga a babá Thayná Ferreira por falso testemunho. Em depoimento, ela disse que esteve na presença dos três por poucas vezes, mas não percebeu nada de anormal.
No pedido de prisão, o Ministério Público aponta que os “prints” extraídos do telefone celular de Monique demonstram uma rotina de violência e subjugação imposta por Jairinho a Henry.
“O histórico de alguém que agredia pessoas, agredia crianças. Na medida em que ele foi praticando essas condutas, acho que a coisa foi recrudescendo até o momento que a coisa sai do controle e ele espanca violentamente o menino Henry levando ao óbito da criança”, afirma o promotor Marcos Kac.
O advogado do casal afirmou que não teve acesso às mensagens e que as provas precisavam ser protegidas. A defesa de Thayná Ferreira não se manifestou.
Fonte: G1/ Jornal Nacional
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