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Miguel Nicolelis critica toque de recolher e prevê lockdown na Bahia: ‘questão de dias’

Miguel Nicolelis critica toque de recolher e prevê lockdown na Bahia: ‘questão de dias’

20/02/2021 às 09h20 Atualizada em 20/02/2021 às 12h20
Por: Redação
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Neurocientista, Miguel Nicolelis - Coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste (Foto: Reprodução)
Neurocientista, Miguel Nicolelis - Coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste (Foto: Reprodução)

Coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste, neurocientista classifica o toque de recolher como uma medida paliativa.

O toque de recolher que começa na Bahia nessa sexta-feira (18), das 22h às 5h, por determinação do Governo do Estado, é visto como uma medida paliativa pelo neurocientista Miguel Nicolelis, coordenador do comitê científico do consórcio Nordeste. Para o pesquisador, a iniciativa já “provou não ser eficaz” e deve evoluir para um lockdown em “questão de dias”. A declaração foi dada em entrevista ao CORREIO realizada por telefone na tarde dessa quinta.

Na oportunidade, Miguel também explicou sobre a sua opinião de que a realização do Carnaval em 2022 está ameaçada devido a propagação do vírus e a não vacinação da população.

“Ironicamente, a maioria dos gestores parece ter colocado economia como prioridade, mas com medidas paliativas eles só empurraram a crise, que pode durar mais tempo do que o esperado”, disse.  

[caption id="attachment_37828" align="alignnone" width="422"] Neurocientista, Miguel Nicolelis - Coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste (Foto: Reprodução)[/caption]

Como coordenador do comitê científico, Nicolelis lembrou que fez diversos alertas às autoridades sobre a necessidade de medidas mais duras no enfrentamento da doença. “Desde dezembro alertamos a situação do estado. As eleições e festas de final de ano se sincronizaram e fizeram os números crescerem”, argumenta.

Miguel Angelo Laporta Nicolelis é médico e neurocientista brasileiro, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em Fisiologia e Biofísica pela Universi­dade de Hahnemann. Com 59 anos, é considerado um dos maiores e mais influentes na sua área. Ele lidera um grupo de pesquisadores da área de Neurociência na Universidade Duke (Durham, Estados Unidos), no campo de fisiologia de órgãos e sistemas. Em abril de 2020, assumiu a coordenação da comissão científica do Consórcio Nordeste para combate ao coronavírus.

Na entrevista, o cientista aproveitou para criticar a realização das eleições em 2020 e de festas que tem promovido aglomerações e contaminações. “A distribuição de casos migrou para jovens. (...) Isso muda a dinâmica da pandemia no Brasil”, explica. Confira a entrevista completa:

O toque de recolher na Bahia é uma medida eficaz? - Não. Onde o toque de recolher foi testado, provou não ser eficaz. Na Europa, todos os lugares que tiveram evoluíram para um lockdown logo depois. Isso é uma questão de dias. Essas medidas paliativas não têm efeito.

O que seria o melhor a fazer? - A situação atual mostra que tinha que se ter tomado medidas como esta antes. Desde dezembro alertamos a situação do estado. As eleições e festas de final de ano se sincronizaram e fizeram os números crescerem. Os óbitos na Bahia não param de crescer e isso acontece, pois as pessoas estão transmitindo mais o vírus. Nossa primeira recomendação de lockdown em Salvador foi em julho do ano passado. A situação vivida agora é muito semelhante a julho e agosto, sendo que temos uma tendência de crescimento na Bahia.  As eleições mesmo nunca deveriam ter ocorrido. Poucos ouviram nossos alertas e todas as previsões que fizemos se materializaram.

Mais da metade dos casos de Covid-19 na Bahia são entre pessoas de até 39 anos. E os casos entre pessoas de 20 e 29 anos não para de crescer. O que esses números significam? - Não é só a Bahia que está passando por isso. Em São Paulo isso foi notado em janeiro. A distribuição de casos migrou para jovens. Estamos vendo crescimento de complicações graves em crianças, por exemplo. Isso muda a dinâmica da pandemia no Brasil. As festas clandestinas ocorreram principalmente com jovens, o que aumenta o risco de eles serem infectados e passarem a doença para os outros. Mas tudo isso não foi por falta de aviso. Dia 4 de janeiro eu publiquei um tweet dizendo que ou o país entrava em lockdown ou a situação ia ficar grave desse jeito. O Nordeste estava se saído bem, mas agora vê uma subida de casos nessa segunda onda. E as medidas paliativas não ajudam como deveria.

A depender do avanço do vírus, é possível mesmo que não tenhamos carnaval em 2022? Quais as condições que permitem que isso aconteça?  - Sim. Interromper a vacinação e vacinar num ritmo lento são indícios disso. Reduzir a vacinação ou parar, como acontece em Salvador, onde já se tem variantes mais infecciosas e que afetam também as pessoas jovens, deixa o sistema de saúde pressionado. A chance da pandemia se arrastar por meses começa a ser real. Isso, é claro, compromete o calendário de todas as festas populares, como o Carnaval do ano que vem. Ironicamente, a maioria dos gestores parece ter colocado economia como prioridade, mas com medidas paliativas eles só empurraram a crise, que pode durar mais tempo do que o esperado.

A presença do vírus Influenza, cujos casos começam a aumentar em abril, pode também impactar o sistema de saúde? - Essa é uma previsão que nós já fizemos desde o ano passado. As epidemias sazonais como dengue, chikungunya e a própria influenza impactam. A convergência de múltiplas epidemias a partir de abril é a tempestade perfeita para criar uma nova pressão de um sistema hospitalar que já está baqueado e não tem tantos leitos como antes. Eles foram reduzidos na boa parte do Brasil. Essa preocupação é absolutamente concreta e, por isso, o Brasil precisa de duas ou três semanas de lockdown, no mínimo. É preciso diminuir a pressão no sistema.

Fonte: Jornal Correio*

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