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Coronavírus: o estranho caso da cura de um linfoma após infecção por Covid-19

Coronavírus: o estranho caso da cura de um linfoma após infecção por Covid-19

27/01/2021 às 10h03 Atualizada em 27/01/2021 às 13h03
Por: Redação
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Citocinas inflamatórias produzidas em resposta à infecção poderiam ter ativado células T específicas com antígenos tumorais, explica o autor
Citocinas inflamatórias produzidas em resposta à infecção poderiam ter ativado células T específicas com antígenos tumorais, explica o autor

O seguinte caso clínico acaba de ser publicado no British Journal of Haemathology: um homem de 61 anos com inflamação nos gânglios e perda de peso estava recebendo hemodiálise para insuficiência renal em estágio terminal após um transplante de rim malsucedido.

Ele foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin clássico em estágio III (o linfoma afeta áreas de glânglios localizadas em ambos os lados do diafragma ou por cima do diafragma e no baço).

Logo após o diagnóstico, ele foi internado com falta de ar e diagnosticado com pneumonia por SARS-CoV-2, confirmado com exame PCR positivo. Após 11 dias, ele foi liberado para convalescer em casa. Corticosteroides e imunoquimioterapia não foram administrados.

Quatro meses depois, o inchaço dos nódulos havia diminuído e um PET scan revelou uma remissão generalizada do linfoma.

Segundo os autores, a hipótese é que a infecção pelo SARS-CoV-2 desencadeou uma resposta imune antitumoral: as citocinas inflamatórias produzidas em resposta à infecção poderiam ter ativado células T específicas com antígenos tumorais e células naturalmente assassinas contra o tumor. O SARS-CoV-2 curou seu linfoma.

Magia? - Aparentemente, caso semelhante já havia sido descrito em outros tipos de linfomas que haviam apresentado remissão espontaneamente antes do tratamento devido ao efeito antitumoral de pneumonia infecciosa e colite (inflamação intestinal) por Clostridium difficile.

Em última análise, isso não é tão surpreendente. Os microorganismos podem não apenas causar câncer, mas também ajudar a curá-lo. No final do século 19, um médico de Nova York chamado William B. Coley desenvolveu um tratamento contra o câncer com uma preparação bacteriana chamada toxinas de Coley.

Este médico descobriu que pacientes com câncer que também tiveram uma infecção responderam melhor do que pacientes sem infecção. Coley acreditava que a infecção estimulava o sistema imunológico a lutar contra o câncer e então desenvolveu um coquetel de bactérias Streptococcus pyogenes e Serratia marcescens, que injetava diretamente no tumor.

William B. Coley

O médico William B. Coley (centro da foto) desenvolveu, no século 19, tratamento de câncer baseado em bactérias.

Durante anos nos Estados Unidos, pacientes com alguns tipos de câncer incuráveis ​​foram tratados com combinações de bactérias e toxinas, em muitos casos com sucesso.

No entanto, as críticas e principalmente o sucesso dos novos tratamentos de quimioterapia e radioterapia fizeram com que as toxinas de Coley caíssem no esquecimento. No entanto, agora foi provado que o princípio básico do tratamento de Coley estava correto e que alguns tipos de câncer são sensíveis a um estímulo do sistema imunológico.

Em última análise, tudo está relacionado: micróbios, o sistema imunológico, a resposta inflamatória e o câncer, mas ainda não sabemos muito bem como. Nas últimas décadas, o bacilo Calmette-Guerin, mais conhecido pela sigla BCG, tem sido utilizado no tratamento do câncer de bexiga. O BCG é, na verdade, um extrato atenuado da bactéria Mycobacterium bovis, que é usada como vacina contra a tuberculose.

O BCG estimula uma resposta imunológica e causa inflamação da parede da bexiga, o que acaba destruindo as células cancerosas dentro da bexiga, pelo menos nos estágios iniciais do tumor. Na verdade, é nisso que se baseia a imunoterapia, que está na moda hoje. A intuição de Coley estava correta: estimular o sistema imunológico pode ser eficaz no tratamento do câncer.

É por isso que William B. Coley é chamado de "o pai da imunoterapia".

*Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. 

Ignacio López-Goñi é professor de Microbiologia vinculado à Universidade de Navarra (Espanha).

Fonte: BBC | Brasil

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