Na quinta, ambos pioraram. “Minha mulher me ligou no serviço dizendo que meus pais não estavam bem. Quando cheguei em casa, assustei. Minha mãe não estava respirando direito, meu pai estava muito abatido. Ele nunca foi de se entregar. Era um cavalo de forte, brincava que só morreria aos 104 anos.”
O filho os levou para o Hospital do Servidor Estadual, em São Paulo. Maria Helena é professora aposentada. Assim que chegaram, foram colocados no oxigênio enquanto aguardavam o resultado dos exames. A tomografia logo mostrou que ambos já estavam com os pulmões bem comprometidos, e que precisavam ser internados.
“Despedi do meu pai e da minha mãe. Ele me disse: ‘Deus te abençoe, meu filho, obrigado por tudo o que você está fazendo por nós’. Fui embora para casa. A sensação é de sequestro. Você não pode ver, você não tem contato. Você fica o dia inteiro esperando uma ligação desesperado para saber como o seu pai e sua mãe estão”, conta ele, aos prantos.
A apreensão aumentou na segunda (14), quando recebeu um telefonema do hospital avisando que a mãe seria intubada.
“Perguntaram se eu queria falar com ela pela última vez. Caiu o meu chão, mas tentei ser forte. Falei pra ela: ‘mãe, vão intubar a senhora, mas vai ser melhor’. Ela disse. ‘Vai dar tudo certo, meu filho’”.
Ao desligar o telefone, Guze conta que entrou em desespero. “Comecei a chorar muito, saí do serviço e fui pra casa muito mal. Minha pressão foi a 25 por 11. Me deram um calmante tarja preta. Só à noite me contaram que tinham intubado meu pai também.”
Caçula da família, o engenheiro diz que sempre foi muito apegado aos pais. “Chegava a dormir no meio deles na cama. Tudo o que eu fazia era com eles, para eles”, diz, casado e pai de uma menina.
Nos dias seguintes, as notícias eram as de que os pais estavam se recuperando. Seguiam intubados, mas estáveis.
Na segunda (21), os médicos informaram que Maria Helena havia saído da intubação, mas que o seu marido apresentava febre e complicação renal. Na terça, o idoso sofreu um choque séptico e morreu.
“Tive que reconhecer o corpo no necrotério. Estava numa geladeira grandona, em um saco fechado. Eu abri o saco, abracei e beijei o meu pai. Conversei muito com ele. Tudo o que não podia fazer, eu fiz”, conta Guze, que já teve Covid em abril, foi internado e ficou dois dias no respirador.
A cerimônia antes da cremação durou 15 minutos. “É aquele momento que a gente percebe que não é nada, que a gente não leva nada dessa vida.”
Faltando dois dias para o Natal, ele só pensava em como dar a notícia da morte do pai para a mãe, ainda internada e muito debilitada.
“Mas antes disso a médica ligou, dizendo que, de alguma forma, minha mãe já estava sabendo. Ela contou que o meu pai [depois de morto] tinha ido se despedir dela. Não sei se você acredita nessas coisas.”
Maria Helena teve alta dia 29 de dezembro. “Ela ficou muito dilacerada. A Covid acabou com ela, foi como se tivesse passado um trem em cima dela. Chegou em casa cheia de hematomas. Eu dava banho nela, limpava quando ia ao banheiro, trocava fraldas. Ela virou um bebê.”
Hoje, já voltou andar, se alimenta e toma banho sozinha, mas ainda sente muitas dores no corpo e chora a morte do marido. A família tenta poupá-la do assunto.
O casal completaria 50 anos de união no dia 25 março. A família planejava uma grande festa para comemorar a data e o aniversário do patriarca, que completaria 80 anos no próximo dia 2 de fevereiro.
Segundo o médico intensivista Ederlon Rezende, que dirige a UTI de adultos do Hospital do Servidor Estadual, só na instituição, ao menos 40 casais foram internados simultaneamente desde o início da pandemia de Covid-19.
“Esses casais separados pela Covid é uma das coisas mais marcantes para mim dessa pandemia. O lado mais duro é que raramente voltam os dois para casa. A doença é mais cruel com os homens. Não tem final feliz. Muitas vezes, quem sobrevive diz que preferiria ter morrido no lugar do outro.”