
Membro do Observatório Covid-19 BR, o físico Vitor Mori, pós-doutorando na Faculdade de Medicina da Universidade de Vermont, em USA, foi categórico ao definir o rastreamento de contatos como uma das medidas necessárias a serem implementadas no combate à pandemia.
Em entrevista ao EXTRA, Mori analisou os impactos da Covid-19 no Brasil até o momento, quando o número de mortes causadas pela doença ultrapassa a marca de 100 mil vítimas.
— O ponto principal para mim é que a gente precisa levar urgentemente o rastreamento de contatos a sério, fazer isso de forma coordenada, utilizando a rede de agentes comunitários de saúde, e também correr atrás de insumos para ter testes de RT-PCR, que são fundamentais para o rastreamento. O ideal é que sejam feitos testes em massa — destacou.
Questionado sobre como o país poderia agir para reverter a situação do quadro atual, ele afirmou:
— Essas 100 mil pessoas que morreram não podem ser recuperadas. São 100 mil vidas perdidas. É muito duro pensar que a gente está perdendo em média mil pessoas por dia. Isso não é um número. A gente está falando de mil famílias, mil histórias, mil sonhos, e isso todo dia.
Apesar disso, ele apresentou algumas indicações do que pode ser feito para evitar mais mortes futuramente, como o aproveitamento da estrutura que o Sistema Único de Saúde (SUS) já dispõe.
— O Brasil tem experiência na vigilância epidemiológica, é preciso utilizar a inteligência já existente sobre doenças infecciosas, treinar os agentes comunitários de saúde, que já têm conhecimento do território, das pessoas, e fornecer para eles o equipamento de proteção. Esses profissionais são peça-chave para fazer o rastreamento de contatos e isolar a pessoa infectada antes que ela se torne infecciosa.
Quanto a uma previsão para os próximos meses, o pós-doutorando se mostrou relutante quanto a firmar uma estimativa, justificando que a propagação da doença depende do quanto as medidas de controle da pandemia são empregadas.
— As estimativas dependem de quais medidas serão tomadas. Se o Brasil fizer os rastreamentos, fechamentos na hora certa, esses números vão cair. Se começar a abrir de forma desordenada, como está sendo feito, vão subir — explicou.
No Observatório Covid-19 BR, seu trabalho é realizado com um grupo de cientistas que pensam estratégias de rastreamento de contatos e trocam informações com secretarias municipais, estudando formas de implementar esta medida.
Mori esclareceu que há vários tipos de testes em andamento. No entanto, seus resultados apresentam diferentes significados. Por isso, ele frisou que o RT-PCR é o mais eficaz para rastrear quem entrou em contato com um paciente, por conseguir identificar o vírus no período infeccioso. Dessa forma, é possível saber que determinada pessoa testada positivo deve ficar isolada, assim como aqueles que entraram em contato com ela. No entanto, esse tipo não é usado de forma massiva na população.
— A pessoa (testada positivo pelo RT-PCR) tem o potencial de infectar outras pessoas antes de apresentar os sintomas. E ainda há os casos assintomáticos, que podem infectar outras sem nem perceber. Mas com o rastreamento, é toda uma cadeia de contatos (a serem contaminados) que se consegue cortar.
O físico afirmou que, na falta de testes para a população, pode-se fazer o rastreamento a partir dos sintomas.
— Se não tem como rastrear todas as pessoas com quem (o infectado) teve contato, faz ao menos entre quem está dentro da residência.
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