
A psicóloga Ana Lúcia Castelo, de 62 anos, está surpresa com a rapidez com que profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus apresentaram sintomas de estresse pós-traumático. Já tem 12 anos que ela atua em programas de ajuda humanitária num contexto de grandes traumas ―os mais recentes deles foram o desastre de Brumadinho e o atentado de Suzano― e há meses ela atende voluntariamente a médicos, enfermeiros e técnicos que todos os dias enfrentam a face mais dura da pandemia enquanto se desdobram para salvar o máximo de vidas. Desde então, ouve relatos de crises de choro, dificuldade para dormir e sentimento de impotência quando equipamentos e vagas de terapia intensiva ficaram escassos. Até o som de respiradores e monitores ―um bip repetitivo dentro dos hospitais e na cabeça de quem vivencia a doença diariamente― viraram gatilho para esses profissionais que tiveram de tomar, durante a crise, difíceis escolhas sobre quem deveria receber antes o cuidado que precisa. “Não são pessoas que têm estruturas psicológicas frágeis, mas o teor da vivência foi muito forte”, ela diz.
Ana Lúcia faz parte de um programa que ajudou a desenhar após ela mesma ter seu lado psicológico abalado ao ter a covid-19. Levou a ideia ao grupo de psicólogos especializados em trauma do qual faz parte (a Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR) e, junto com seus colegas, desenvolveu um programa voluntário para atender gratuitamente profissionais que enfrentam situações tão difíceis enquanto a epidemia segue latente. “Naquele momento, eu já fiquei pensando que eles iriam em breve desenvolver sintomas psicológicos muito difíceis, mas não imaginava que passariam a desenvolver quadros de estresse pós-traumático tão rapidamente”, conta Ana Lúcia, que nos primeiros atendimentos, há meses, já identificava os sintomas.
Além dessa rede voluntária de atendimento, já está disponível o serviço de suporte psicológico para os profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à COVID-19 em todo o país. O projeto TelePSI, desenvolvido pelo Ministério da Saúde e Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), prestará serviços de teleconsulta psicológica por meio de uma central de atendimento que funcionará de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, pelo 0800 644 6543 (opção 4). A primeira ligação é para cadastro e avaliação. A iniciativa é um reconhecimento da necessidade de apoio a esses profissionais que, pelo trabalho intenso, com riscos de contaminação elevados e condições adversas, podem desenvolver quadros de ansiedade, depressão, irritabilidade, transtornos de estresse agudo, entre outros problemas. O projeto deve funcionar até setembro e conta com um investimento federal de R$ 2,3 milhões.
A central de atendimento para apoio psicológico é formada por 36 profissionais de Psicologia e Psiquiatria, que foram selecionados por edital e capacitados para o projeto. O canal é destinado a todos os profissionais das 14 categorias da saúde que atuam nos atendimentos relacionados à COVID-19 e que sintam a necessidade de suporte neste momento, como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, biomédicos e farmacêuticos.
Fonte: El País e MS
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