
Maryane da Rocha Santos, de 31 anos, não tem nenhuma memória do parto do seu segundo filho. Estava em coma induzido quando pariu José Bernardo dentro de uma UTI para pacientes infectados pelo novo coronavírus no Ceará. Foi uma decisão médica drástica para tentar salvar sua vida, depois que a covid-19 comprometeu 50% de seus pulmões e lhe causou uma parada cardiorrespiratória. Sua última lembrança grávida é a de ser internada enquanto o fôlego lhe faltava, no início de maio. E, dias depois, de conseguir abrir os olhos e mover apenas a cabeça e o braço direito, que foi escorregando lentamente até o ventre em busca do filho. “Coloquei a mão na barriga e perguntei pra enfermeira: ‘Cadê o meu bebê?‘. Ela só disse para eu não me preocupar que estava todo mundo sendo cuidado”, conta Maryane em conversa por telefone com o EL PAÍS.
Bernardo nasceu cinco dias antes de a mãe acordar, com apenas 28 semanas de gestação e com menos de um quilo e meio —uma gravidez dura em torno de 40 semanas. Prematuro, Bernardo precisou ficar dois meses e meio na UTI neonatal antes de enfim poder ir para casa. Por sorte, não foi infectado pelo coronavírus durante o nascimento. Mas as visitas para ambos estavam proibidas no hospital por conta das restrições impostas pela pandemia. Em alas distintas da mesma unidade, mãe e filho tentavam recuperar a saúde. Maryane teve alta da unidade de terapia intensiva, mas precisou ficar ainda dez dias na enfermaria por conta das sequelas causadas pela doença e pela longa internação. “Saí da UTI sem conseguir andar. Precisei reaprender a caminhar, a comer alimentos sólidos. Só me deixavam sair quando estivesse curada, e eu não podia ver meu filho”, lembra. Todos os dias, as notícias de Bernardo chegavam em fotografias, vídeos e relatos da equipe médica. “O hospital me dizia como ele estava, se tinha feito novos exames, tudo. Só que não é a mesma coisa de estar presente.” Quando recebeu alta e precisou se afastar ainda mais do filho. “Demorei 74 dias pra conhecer meu filho por causa da pandemia", contou a mãe.
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