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Bolsonaro usa manifestação dúbia da OMS para pregar fim da quarentena.

Bolsonaro usa manifestação dúbia da OMS para pregar fim da quarentena.

10/06/2020 às 18h49 Atualizada em 10/06/2020 às 21h49
Por: Redação
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Foto: Reprodução
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Governo segue ordem do STF e republica dados acumulados da Covid-19, que já matou mais de 38.000. Ministro interino da Saúde promete “transparência” e diz que confia em informações dos Estados.

O presidente Jair Bolsonaro decidiu transmitir ao vivo uma reunião com ministros nesta terça-feira, a primeira depois do fatídico encontro do dia 22 de abril, que virou alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal, a pedido do ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Assumindo um tom mais polido e ponderado diante das câmeras, Bolsonaro não deixou de dar seus recados em defesa da retomada econômica em meio à pandemia de coronavírus, para a “abertura de shoppings e comércio em geral” —flexibilização que já começa a acontecer nas duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo sem sinais de estabilização da doença nos locais. O presidente se escudou na própria Organização Mundial da Saúde (OMS), que chegou levantar uma esperança de que pacientes assintomáticos da Covid-19 ofereçam menos riscos de transmissão do que se imaginava. “Ontem [segunda], de forma não comprovada, a OMS informou que a transmissão por parte de assintomáticos é praticamente zero”, disse o presidente, assumindo uma cautela inusual ao dizer que “nada é comprovado no coronavírus”.

Na segunda, Maria Van Kerkhove, chefe da unidade de doenças emergentes da OMS, ponderou durante uma coletiva que pesquisas têm mostrado que pacientes assintomáticos da Covid-19 têm chances pequenas de retransmitir a doença. A repercussão da fala, porém, fez que a OMS viesse a público nesta terça, para reforçar que mantém sua posição sobre a necessidade de quarentenas, e que “rejeita a interpretação de que estudos tenham concluído de forma definitiva que pessoas sem sintomas não repassam o coronavírus”, informou o jornalista Jamil Chade, em coluna no portal UOL. A conclusão de Kerkhove foi baseada num estudo pequeno, sem alcance para se tornar uma recomendação absoluta.

Bolsonaro, porém, viu nesse deslize da organização a chance de defender mais uma vez a abertura rápida do comércio ao mesmo tempo em que antagonizou com governadores, o Supremo Tribunal Federal e a imprensa. Segundo ele, a brecha aberta pela fala de Kerkhove da OMS pode “sinalizar a uma abertura mais rápida do comércio e a extinção de medidas restritivas adotadas, segundo decisão do Supremo Tribunal Federal, por governadores e prefeitos”, ressaltou o presidente, completando que “o Governo [federal] não tem nada a ver com essas medidas, como por exemplo, fechamento de comércio e proibição de frequentar espaços públicos.”

Acuado pelas críticas à gestão da pandemia, Bolsonaro criticou mais uma vez a imprensa ao falar em “pânico pregado lá atrás no tocante ao vírus”. No comando de um Governo obrigado, pelo STF, a recuar nas mudanças pretendidas na divulgação dos dados da doença, manteve o tom de desrespeito em tudo que se refere à pandemia. A conduta tem fragilizado sua posição perante parte da sua base de eleitores, que viram no presidente insensibilidade com os mais de 38.000 mortos.

Cobranças a Pazuello - Mais tarde, foi a vez de o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, usar também tom mais ameno. Também acuado pelo revés no STF, o militar teve de se explicar a deputados sobre a divulgação do panorama da Covid-19 no Brasil em reunião técnica na Câmara. Pazuello afirmou que a transparência nos dados é seu “maior objetivo”, mesmo sua pasta tendo decidido ocultar informações na sexta-feira sobre os números acumulados da pandemia. O ministro falava pouco antes de os principais índices sobre a doença voltarem ao site principal de divulgação do ministério, seguindo a ordem do Supremo: o Brasil registrou 1.272 óbitos pela Covid-19 nas últimas 24 horas até esta terça-feira, e o total de mortes foi a 38.406.

“Há 20 dias, procurei o presidente da República para dizer que precisamos de mais dados das prefeituras e dos Estados”, afirmou, explicando que, durante esse tempo, sua equipe trabalhou em uma nova plataforma para detalhar dados que possam servir ao gestores públicos e à população. De acordo com Pazuello, a expectativa é que tal sistema esteja concluído nesta quarta-feira e que, nele, seja possível observar a curva epidemiológica de todos os municípios brasileiros.

Pazuello defendeu a nova metodologia da divulgação de dados sobre a Covid-19, que deixará de ser feita apenas pela data de notificação e será feita também pela data de ocorrência (quando o paciente relata os primeiros sintomas) e data do óbito, atualizando o somatório total retroativamente. "As informações agora são plenas, transparentes e reais, em tempo real”, disse ele, acrescentando que os dados são “inescondíveis”.

“Não existe como aumentar ou diminuir número de óbitos. Se não informarmos o número de óbitos por dia, o gestor não sabe o que está acontecendo em sua cidade e que medidas deve tomar. E você tem metade do mundo dizendo que queremos esconder óbitos... Pelo amor de Deus! Isso é impossível. É a sub-notificação que queremos evitar, não a hiper-notificação”, acrescentou o ministro, que, ao contrário de Bolsonaro, disse confiar nos dados dos Estados.

Durante a reunião na Câmara, Pazuello também disse que o país já realizou 10 milhões de testes desde o início da pandemia no país, sendo 7 milhões de testes rápidos —que verificam a presença de anticorpos no indivíduo para o novo coronavírus e são de menor precisão— e 3 milhões de PCR (do inglês reverse-transcriptase polymerase chain reaction), que é a resposta a resposta final e precisa sobre a presença do vírus na amostra analisada. “5% da nossa população já foi testada”, disse Pazuello, que acrescentou que o Governo comprou mais 10 milhões de testes PCR. No entanto, a própria plataforma de leitos e insumos do Ministério da Saúde mostra que os números mencionados pelo ministro correspondem ao número de testes distribuídos, mas não necessariamente já realizados no país.

 

Fonte: El País/Brasil

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