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Médicos vão do rigor total a casos não previstos pelo CFM ao prescrever maconha

Médicos vão do rigor total a casos não previstos pelo CFM ao prescrever maconha

04/10/2019 às 11h26 Atualizada em 04/10/2019 às 14h26
Por: Redação
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Foto: Reprodução
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Enquanto o CFM autoriza o uso do CBD apenas para crianças epilépticas, médicos que acompanham novos estudos e veem melhoras em seus pacientes estão prescrevendo o composto, e até mesmo o THC, para várias condições.

De um lado, há os que seguem estritamente a orientação do CFM (Conselho Federal de Medicina) e só prescrevem produtos à base de Cannabis aos pacientes com epilepsia refratária aos tratamentos convencionais.

No meio, estão os que aumentam o escopo da prescrição com cautela, à medida que surgem novos estudos, mesmo diante da inexistência de evidência científica robusta.

Na outra ponta, há os que se dizem convencidos dos benefícios e da segurança da substância e já ampliaram as prescrições para situações que nem se configuram doenças. Esse é todo o espectro do perfil dos médicos prescritores da Cannabis medicinal no país, pouco mais de mil em um universo de 450 mil no país, segundo o CFM (Conselho Federal de Medicina).

O neurologista infantil Carlos Augusto Takeuchi, do Hospital Infantil Sabará (SP), encaixa-se no primeiro caso. “No início, [Cannabis medicinal] soava folclórico. Eu sempre fui muito cético. Inicialmente era uma pasta, parecia uma rapadura, que era dissolvida em óleo de coco. Não se tinha controle nenhum do produto que tinha lá, da quantidade.” Com os trabalhos científicos documentando os efeitos benéficos do canabidiol (CBD) em casos de epilepsias graves, ele se convenceu a prescrever o produto aos pacientes refratários às terapias convencionais.

“Uma das crianças chegava a ter 50 crises por dia e passou a ter duas. Também apresentou melhoras na cognição.”

Ainda assim, Takeuchi segue estritamente a recomendação do CFM. “A resolução é clara e pontual. Não se pode ceder aos encantos da família. É muito comum ligarem no consultório perguntando se eu prescrevo canabinoides. Eu digo: se tiver indicação, eu prescrevo. Se não tiver, obviamente que não.”

Ele conta que tem pelo menos três pacientes que são epiléticos de outras categorias cujos pais queriam que eles usassem canabidiol. “Eu disse não, porque eles não tinham indicação, e eles mudaram de ideia. As pessoas continuam enxergando [a Cannabis] como panaceia. Pode ser que um dia venha a ser, mas hoje não tem evidência para isso. Tem que ter muita cautela sobre o que vai prescrever e para quem. Prefiro ser conhecido como o chato que não prescreve do que o bonzinho que dá para todo mundo”.

Já o psiquiatra Cesar Parga, do Rio de Janeiro, diz estar convencido de que os canabinoides podem ajudar os idosos a melhorar a qualidade de vida. “Eu prescrevo para quem tem doença e para quem não tem mas se queixa de tristeza, tédio. Melhora muito a qualidade de vida, harmoniza a pessoa por inteiro”, diz ele.

No caso de doenças, ele diz que tem se impressionado com os resultados em pacientes com parkinson e alzheimer. “Há uma melhora nítida nos tremores. Nas demências, o paciente fica menos agitado, mais em paz, volta a participar da vida familiar.”

Para ele, os médicos refratários ao tratamento com Cannabis deveriam ouvir mais os pacientes e familiares. “É uma revolução fantástica o que está acontecendo.”

Na sua opinião, a alegação do CFM de falta de evidência não se sustenta. “Por que o CFM não proíbe a homeopatia? Não temos provas científicas sobre homeopatia e acupuntura, no entanto o CFM permite essas práticas”.

Parga busca numa frase atribuída ao filósofo italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) a razão para a resistência dos conselhos médicos: “Os preconceitos têm raízes mais profundas do que os princípios”.

Outra explicação, segundo o médico, pode ser atribuída a interesses políticos, econômicos e de poder. “Até prefiro que sejam essas as razões porque podem ser revertidas. Já os preconceitos residem nas sombras do inconsciente”.

Ricardo Ferreira, ortopedista do Rio de Janeiro especialista em coluna e dor, diz que se deparava com casos nos quais os pacientes não conseguiam melhorar apesar de alternativas terapêuticas, cirúrgicas ou clínicas. “Tinha sempre uma parcela que não melhorava, apesar dos esforços. Por conta disso, fui buscar alternativas.”

Começou a pesquisar sobre o uso da Cannabis há cerca de dez anos e viajou a lugares onde era possível usá-la como medicamento. “Tinha o maior preconceito. Não fazia parte da minha realidade. Achava que era uma forma de legalizar a maconha. Mas vi que os países têm programas médicos baseados em ciência. Não é uma coisa de contracultura, mas baseada em resultados”.

Hoje, diz já ter prescrito para cerca de 400 pacientes. “Vejo possibilidade do uso do extrato de Cannabis quando o paciente não tem opção terapêutica ou tem dor refratária. Pessoas que tentaram todas as terapias e não deram certo.”

Ele diz que alguns pacientes estranham a indicação. “Sou especialista na área de dor crônica. Quando os pacientes vêm para mim, sofrem de dor há muito tempo. Digo que, se quiserem tentar, existe a possibilidade. Não estamos inventando nada, é feito em outros países”.

Ele acredita que cerca de metade dos pacientes para os quais indica o CBD melhore. Aos que não têm evolução ele recomenda o THC, substância da Cannabis que tem efeito psicoativo. “Uns 30% ou 40% melhoram”.

Segundo Ferreira, o tratamento não é ideal para todo mundo. Há pessoas que usaram e continuam com dor e sofrimento. Outros não conseguem continuar usando o THC por causa do efeito psicoativo ou surtos psicóticos. “O ideal é que o tratamento alivie o sofrimento e não cause perturbação ou transtornos psíquicos incapacitantes. Eu prescrevo e acompanho o paciente em períodos regulares, ajustando as doses.”

 

Fonte: SB - smoke buddies

 

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