
Em discurso no Piauí, o presidente Jair Bolsonaro abandonou a metáfora preferida: casamento, namoros, abraço hétero e flertes. Voltou à escatalogia que combina melhor com o seu estilo.
Ontem, no Piauí, criticando governadores do Nordeste, mentindo sobre um desejo da região de se separa do Brasil (pura fakenews), mandou essa: “Vamos acabar com o cocô no Brasil: comunistas e corruptos. Usou as duas símbolos para designar o que considera seus adversários.
Divide país e estimula ódio - Bolsonaro faz um discurso divisionista, dificulta uma boa relação administrativa que deveria ter com governadores do Nordeste, como reza a Constituição. A fala de ontem lembrou um discurso de estímulo ao ódio na política que fez pouco antes do segundo turno da campanha presidencial de 2018.
Na época, ele disse: “Esses marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria. Petralhada vai tudo para a ponta da praia”. Ponta da praia é como os militares se referiam na ditadura aos pontos de desova de corpos de torturados e assassinados por agentes do Estado.
Ignorância sobre política externa
Em relação à questão da Argentina é outro grande erro de política externa. O Brasil é o maior exportador para nosso principal vizinho. Somos o principal parceiro dos argentinos. Eles ocuparam a terceira posição em relação a nós, logo após China e EUA. O Mercosul está ancorado na relação especial entre Brasil e Argentina.
Não faz sentido ofender a oposição argentina, que tem chance de voltar ao poder. Chamá-los de bandidos de esquerda é desconhecimento. São moderados.
E tem um lance histórico importante aqui.
A Argentina tratou a memória da sua ditadura de modo diferente do Brasil. Lá, prenderam, julgaram e mandaram para a cadeia torturadores e ditadores. A imagem de Bolsonaro em geral é péssima. Houve uma ditadura sanguinária e uma guerra desastrosa (Malvinas), sem contar o horror de sequestros de bebês de famílias de esquerda se opuseram à ditura.
Aqui, passamos pano com a Lei da Anistia de 1979. Para permitir a voltar de exilados e a libertação de militantes torturados, julgados ilegalmente e presos, aceitamos perdoar crimes de agentes da ditadura. O terrorismo de Estado se deu bem. Mas foi a política como ela era na época, apesar de não serem desprezíveis os argumentos do Ministério Público que querem ainda punir torturadores e assassinos. Há discussão com prós e contras razoáveis.
Mas algo pior acontece quando um presidente homenageia um torturador como Ustra ou mente falando que havia risco de golpe comunista em 1964. Jango era um moderado. Sua queda sem esquema de resistência mostrou a fragilidade da “trama comunista”.
Organizações armadas reagiram invocando o legítimo direito de enfrentar o arbítrio. Mas essas guerrilhas nunca tiveram chance de verdade. A correlação de forças massacrou uma juventude generosa que cometeu erros de avaliação pelos sonhos nos quais acreditava. Esses jovens merecem nossa homenagem.
Bolsonaro, que mente para as futuras gerações, tentando reescrever a História merece o desprezo da própria História. E ele terá.
Fonte: Kennedy Alencar - blogdokennedy.com
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