
O Ministério da Economia confirmou, nesta segunda-feira, que o engenheiro e mestre em Finanças Gustavo Montezano será o novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A informação foi antecipada pela colunista do GLOBO Miriam Leitão. Montezano irá substituir Joaquim Levy, que pediu demissão no domingo. Montezano será o sexto presidente do BNDES em três anos.
Montezano é o atual secretário especial adjunto de Desestatização e Desinvestimento do Ministério da Economia. Ele é o número dois da secretaria comandada por Salim Mattar , que chegou a ser cotado para a presidência do BNDES. O nome de Montezano foi escolhido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para acelerar as privatizações e a devolução antecipada de recursos do banco ao Tesouro Nacional. Os recursos serão usados para reduzir o estoque da dívida pública, uma das bandeiras de Guedes.
A devolução dos recursos que foram aportados pelo Tesouro no BNDESa partir de 2009 era um dos pontos de atrito entre Guedes e Levy, que pediu demissão no fim de semana após o presidente Jair Bolsonaro declarar que ele estava com a “cabeça a prêmio”.
Segundo fontes na equipe econômica, Montezano será um homem de Salim Mattar no banco. Além de devolver dinheiro ao Tesouro, focará na estruturação de projetos de privatização, especialmente em saneamento a estados e municípios.
Mattar chegou a demonstrar interesse pelo BNDES para ter maior autonomia no processo de privatizações, já que tem confessado a interlocutores estar insatisfeito com os limites de sua secretaria para entregar resultados. Os leilões realizados pelo governo até agora foram todos patrocinados pelo Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que ficou ligado ao Planalto, fora da pasta da Economia. Mas o governo desistiu da nomeação por temer algum entrave na indicação e optou pelo braço direito dele, apresentado como um profissional de mercado. Montezano já havia sido sugerido por Guedes para a diretoria do BNDES, mas não foi acolhido por Levy.
Engenheiro formado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), Montezano tem mestrado em Finanças pelo Ibmec-RJ. Carioca de 38 anos, ele fez carreira na área de crédito a grandes empresas do BTG Pactual, depois de um início como analista no Opportunity. Tornou-se sócio do BTG e teve seu último posto no banco em Londres, na área decommodities. Deixou a instituição para voltar ao Brasil e se juntar à equipe montada por Paulo Guedes para o governo Bolsonaro. Alinhado às ideias liberais do ministro — um velho amigo de seu pai, o acadêmico Roberto Montezano — e de Mattar, dono da locadora de veículos Localiza que conhecera no BTG, Gustavo Montezano também é próximo aos filhos do presidente Jair Bolsonaro, de quem foi vizinho na infância.
O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) disse não saber se Montezano apoiou seu pai na campanha de 2018, mas contou que tem uma relação de proximidade com ele, que tem a mesma idade de seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).
— Ele não iria para o BNDES se não tivesse alinhamento total com as propostas defendidas por Paulo Guedes para o banco. Ele é bem alinhado com esses objetivos e com a visão de que, nos últimos governos, o BNDES sofreu uma interferência indevida e se afastou de seu papel de ajudar pequenas e médias empresas, de participar de projetos de impacto social — disse uma pessoa próxima a Montezano.
Um dos complicadores para Montezano cumprir a principal missão que receberá de Guedes no BNDES, a aceleração da devolução de recursos ao Tesouro, é o Tribunal de Contas da União (TCU). Até agora, já foram depositados R$ 338 bilhões — R$ 30 bilhões só neste ano. O saldo devedor remanescente desses contratos é de R$ 238,1 bilhões. O Ministério da Economia negocia com o banco a possibilidade de receber mais R$ 70 bilhões ainda em 2019. Técnicos do TCU querem saber, continuamente, se mesmo com os pagamentos antecipados o banco continua em condições de emprestar recursos. Por isso, o tribunal faz um controle de perto das operações.
O TCU exige, por exemplo, que o Ministério da Economia encaminhe documentos demonstrando que a decisão sobre a forma de pagamento — se em recursos financeiros ou em títulos públicos federais — foi tomada pelo BNDES e que essa decisão foi “rigorosamente fundamentada”, explicitando as vantagem para o banco. Também pede muitos documentos relacionados à formalização das operações.
A troca no BNDES, a primeira baixa da equipe econômica, ocorre depois de Levy ser criticado publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro. Na tarde de sábado, Bolsonaro afirmou a jornalistas que Levy estava com a "cabeça a prêmio", e disse que mandou o economista demitir o diretor de Mercado de Capitais do BNDES, Marcos Barbosa Pinto. O presidente afirmou, ainda, que se Barbosa não fosse demitido, ele, Bolsonaro, demitiria Levy.
Economistas avaliam indicação - Para o economista Claudio Frischtak, da Inter.B Consultoria, a escolha do economista é uma indicação correta em relação os planos do governo para o banco:
- A mensagem é um foco maior na privatização e desestatização. Está correto. Mas não basta mandar uma mensagem. É preciso que isso seja feito e, por isso, é necessário um mandato claro para cumprir essa missão. Além disso, os desafios são enormes, pois os funcionários precisam ser motivados. É ruim que o BNDES tenha essa instabilidade em seu comando, com tanta rotatividade - disse Frischtak.
Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do IBRE/FGV e professor do Instituto de Economia da UFRJ, lembra que Montezano é um nome do mercado. Ele destacou que é fundamental que o novo presidente acredite na ideia do governo de impulsionar as privatizações e o processo de desestatização:
- O BNDES teve um papel muito importante nesse processo de privatização no passado. E isso pode voltar agora. Hoje, o banco está passando por mudanças, com a redução dos juros e o desenvolvimento do mercado de capitais. É preciso repensar seu papel. O foco precisa ser a infraestrutura.
Fonte: O Globo
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