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Próxima pandemia não deve ser de um vírus, mas de alguma bactéria, diz CEO da farmacêutica MSD Brasil

Para ampliar acesso a medicamentos, executivo defende que todos os elos da cadeia precisam discutir como chegar a um arranjo mais sustentável

19/02/2024 às 07h20
Por: Redação Fonte: O Globo
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Hugo Niesenbom, presidente da MSD Brasil, nome da multinacional por trás da marca farmacêutica Merck — Foto: Divulgação
Hugo Niesenbom, presidente da MSD Brasil, nome da multinacional por trás da marca farmacêutica Merck — Foto: Divulgação

Com o envelhecimento da população, crescem os investimentos em medicamentos para doenças neurodegenerativas, câncer e outras que impactam os mais idosos, afirma Hugo Nisenbom, CEO da MSD Brasil, sigla usada pela Merck Sharp & Dohme fora de EUA e Canadá. A empresa ancorada principalmente em oncologia e vacinas amplia foco em inovação com pesquisas e aquisições. Em entrevista ao GLOBO, o executivo argentino diz que a empresa cresce “fortemente” no Brasil.

Para ele, é preciso chamar todos os elos da cadeia de saúde à mesa e olhar para o custo total para ter um sistema sustentável. E destaca avanços em prevenção e tratamento. “A gente sempre sonhou com uma vacina contra o câncer. A gente tem uma. Ela está disponível no sistema público há vários anos, que é a tetravalente”, diz, em referência à vacina que previne HPV.

Presidente do conselho diretor da Interfarma, Nisenbom avalia como “ambiciosa” a meta do governo federal de fazer o setor de saúde ter 70% de suas necessidades com medicamentos, insumos, vacinas e equipamentos produzidas no país até 2033, conforme prevê a nova política industrial.

É viável para o setor de saúde cumprir a meta da nova política industrial?
A meta é ambiciosa e entendo que a intenção é marcar um norte para avançar com uma política industrial no setor. Para isso, vai ser crítica a colaboração com as farmacêuticas inovadoras, os institutos tecnológicos, o Ministério da Saúde, com investimentos significativos e tudo isso em um marco de previsibilidade.

Ao mesmo tempo será importante entender caso a caso os projetos para avaliar os que tenham sentido econômico para o Brasil. Na MSD, temos exemplos concretos de transferências de tecnologias em vacinas, como a de HPV, e de cooperação de desenvolvimento de uma vacina contra a dengue (em parceria com o Instituto Butantan), que são exemplos de sucesso.

 

Qual o peso do país para a MSD?
Temos um desenvolvimento muito forte no Brasil. Nos últimos seis anos, crescemos alto, duplo dígito. Somos a oitava companhia farmacêutica em inovação e, em 2025, queremos ser a quinta. O Brasil é o primeiro país para a MSD na América Latina. Em faturamento, dependendo do câmbio, fica entre sétimo e oitavo maior mercado do mundo. Focamos em pilares como inovações que tragam soluções para necessidades médicas não atendidas e dar acesso a toda a população a essas inovações.

 

Quais os focos de operação?
Temos áreas fortes como oncologia, com a imunoterapia Keytruda. Tem 34 indicações aprovadas no país porque serve para diferentes tipos de tumor, mas acreditamos ter perto de 80. Por isso, é nosso carro-chefe em pesquisa clínica. Descobriu-se que o organismo parava de se defender quando encontrava com as células cancerígenas.

E o que o Keytruda faz é permitir que o organismo se defenda. Por isso, tem tantas indicações e efetividade. Em 2022, tivemos 6.300 pacientes. Ano passado, cerca de dez mil. Temos atuado para melhorar o acesso de oncologia nos setores público e privado. No câncer, tempo é tudo.

Vacina é outro foco.
Que eu adoro, porque prefiro prevenir do que curar. Acabamos de lançar a segunda versão da Gardasil, nonavalente, protegendo contra cânceres produzidos pelo HPV. A gente sempre sonhou com uma vacina contra o câncer. A gente tem uma. Ela está disponível no sistema público há vários anos, que é a tetravalente. E agora temos a novalente no sistema privado.

Estamos tentando criar um programa para erradicar o câncer de colo de útero, o que já é praticamente possível em países como Escandinávia ou Austrália, que têm adesão muito forte à vacinação. E estamos trabalhando nesse sentido com o Brasil, onde temos o maior sistema público de vacinação do mundo, graças a uma parceria de transferência de tecnologia abrangente para homens e mulheres.

 

Porque a gente fala de câncer de colo de útero, mas há uma série de cânceres relacionados com HPV que atinge os homens. E estamos entrando em doenças raras. Há uma, de von Hippel-Lindau, que produz tumores benignos, tratada por produto nosso.

Aquisições ajudam a avançar?
Temos comprado empresas e feito parcerias porque acreditamos que nem toda a ciência está dentro de nossos laboratórios. Em junho (de 2023), compramos por US$ 10,8 milhões a Prometheus, de biotecnologia, que tem um tratamento experimental promissor para colites ulcerativas e Doença de Crohn.

Em outubro, fizemos uma parceria com a japonesa Daiichi Sankyo para desenvolver, fora do Japão, três tratamentos contra o câncer. Em novembro, anunciamos a compra de uma biofarmacêutica voltada para doenças raras, neurodegenerativas e genéticas, Caraway Therapeutics.

 

Como as ‘fake news’ sobre vacinas bateram na indústria?
As duas coisas que mais salvaram vidas no mundo são água potável e vacina. Na pandemia, todos viram que uma doença que se propagava rapidamente e gerava centenas de milhares de mortos foi praticamente apagada por uma vacina. Nos anos de pandemia e nos posteriores, com essas fake news, coberturas vacinais baixaram muito.

Agora está em franca recuperação. Temos que trabalhar, toda a sociedade, governo, indústria, médicos. Estamos vendo recuperação importante (em vacinação) por políticas ativas. Outro tema para trabalhar é a vacinação de adultos, caso do HPV, de vacinas pneumocócicas.

É preciso mais investimento em antibióticos? Estão surgindo superbactérias.
Somos uma das poucas farmacêuticas ainda na área de antibióticos. A próxima pandemia, provavelmente, não vai ser de um vírus, mas de alguma bactéria. É preciso atuar em novas moléculas e no uso racional do antibiótico dentro das próprias instituições. Tem de usar o correto e pelo tempo adequado, se não, gera uma pressão sobre o sistema e cria esse risco de resistência de superbactérias.

 

Como dar acesso a medicamentos caros?
Acho que, como presidente da Interfarma, não temos que estar em um jogo antagônico. Os atores têm de trabalhar juntos para criar um sistema sustentável. Do custo de saúde total, os medicamentos representam de 8% a 10% para o sistema privado e 15% para o público. Se há um problema é preciso mexer no todo, porque há outros 90% do custo em outros lugares. Às vezes, são tratamentos incorretos, falta de prevenção, sobreuso de diagnósticos.

Todos temos que nos sentar, obviamente incluindo a indústria, e tornar o sistema sustentável como um todo. É preciso olhar para o custo total do sistema de saúde. Temos de colocar o paciente no centro, ou não vamos avançar.

Há planos de saúde que dizem não ser viável custear certos medicamentos. Falta ajuste?
A empresa pode fazer acordos especiais por desfecho (resultado de tratamento), mas também tem de entrar naqueles sobrecustos e realocar recursos. Quanto está gastando a mais por não usar um antibiótico correto ou fazer prevenção? É fácil apontar o dedo para o outro. Mas temos de fazer a nossa parte.

 

O envelhecimento da população puxa o foco em doenças neurodegenerativas?
A população com mais de 50, 60 está cada vez maior. Estamos norteados em doenças que têm mais necessidades não atendidas porque a população não vivia tanto tempo: oncológica, neurodegenerativa, vacina para adultos como a pneumocócica. Nós, velhinhos — já tenho mais de 60! —, muitas vezes morremos de uma simples pneumonia.

Faltam pesquisadores no país?
Ampliamos nossa organização na América Latina, com investimentos crescentes em pesquisa no Brasil. Globalmente, são US$ 14 bilhões ao ano. E há projetos em responsabilidade social. Distribuímos Mectizan, a ivermectina, para tratar a cegueira do rio, causada por parasita. No Brasil, o foco são os ianomâmis.

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