
o ano de 1960, a presidência dos EUA foi disputada por John F. Kennedy (Democrata) e Richard Nixon (Republicano). Em 26 de setembro daquele ano, os dois fizeram o primeiro debate presidencial televisionado dos EUA. Nixon estava pálido (ele se recuperava de uma temporada no hospital); e com o suor visível no rosto por não usar maquiagem. Já seu adversário democrata surgiu diante das câmeras bronzeado, confiante e relaxado. O debate na televisão, uma novidade naquela época, foi fundamental para dar a vitória - apertada - a Kennedy.
Mais de 50 anos depois, qual será a importância dos debates televisivos entre os candidatos à Presidência do Brasil na eleição deste ano, ainda mais levando em conta o papel das redes sociais na campanha? Para especialistas e marqueteiros ouvidos pela BBC Brasil, os confrontos entre candidatos diante das câmeras serão muito relevantes, principalmente porque a campanha nas ruas e na TV terá menos duração este ano.
O próximo debate entre os presidenciáveis é o desta sexta-feira, da RedeTV! - a transmissão começa às 22h. Os próximos confrontos são os da TV Gazeta (9 de setembro), TV Aparecida (20 de setembro), SBT (26) e Record (30). O último confronto de TV do primeiro turno será o da Rede Globo (em 4 de outubro). No dia 18 de setembro, o site especializado em política Poder360 e a revista Piauí realizam um debate que será transmitido pelo YouTube.
"O horário eleitoral foi encurtado pela minirreforma eleitoral (de 2017). O tempo caiu pela metade, e os debates terão uma importância nunca vista", diz à BBC News Brasil o marqueteiro Paulo de Tarso Santos. "No tempo de TV, os candidatos sequer terão condição de explicar suas propostas. O horário eleitoral terá importância menor, e parte dessa força vai ser transferida para os debates e entrevistas", afirma o profissional, que lançou a expressão "Lula Lá" nos anos 1980, que acabou dando origem ao jingle mais famoso do líder petista.
Direito de imagemKELLY FUZARO / BAND
"As avaliações que nós temos mostram que a internet está sendo supervalorizada (pelos estrategistas das campanhas). A internet ainda é meio incipiente no Brasil. Na semana passada, recebi um número segundo o qual 71% dos eleitores vão aguardar a TV para formar sua opinião. Nós somos um país que tem um hábito muito antigo, arraigado, de formar a opinião após a TV", diz ele.
"Repare que, até agora, os candidatos estão todos parados (nas pesquisas de intenção de voto), mesmo com o WhatsApp e as outras redes sociais sendo usadas a todo vapor", acrescenta Paulo de Tarso, que coordenou a campanha de Marina Silva em 2010. "Além disso, o debate sempre agrega uma certa emoção à disputa. Tem um caráter de confrontação, que as pessoas adoram", diz ele, mencionando como exemplo a disputa televisiva entre a petista Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves, no segundo turno das eleições de 2014.
Especialistas consultados pela BBC dizem que os debates podem sim influir nas decisões dos eleitores - embora não sejam o único fator.
Direito de imagemAFP / NELSON ALMEIDA
"No Brasil, a influência dos debates ainda é muito grande", diz a jornalista e cientista política Deysi Cioccari, professora da faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. "Basta observar o que aconteceu no dia seguinte, após o primeiro debate (da Band, no dia 9 de agosto). Os jornais, a mídia e as redes sociais amanheceram impregnadas pelo que foi dito durante o debate. Mesmo quem não acompanhou a transmissão ficou sabendo minimamente o que foi dito."
"O Brasil é um país que ainda não chegou ao fenômeno do 'yes, we can' (lema de campanha de Barack Obama em 2008, quando a internet e as redes sociais foram fundamentais para a disputa). Somos um país que assiste TV, que procura saber o que está sendo proposto pelos candidatos pela TV", diz Deysi. "Então, nesse sentido, o debate tem sim um grande poder de mudar votos", diz.
"Sou uma defensora dos debates, acho que é a forma mais honesta dos candidatos exporem suas opiniões. Sempre vai ter uma pergunta para o qual ele ou ela não estão ensaiados", diz Cioccari, cuja pesquisa é voltada para a relação entre a mídia e a política.
Direito de imagemRICARDO STUCKERT / INSTITUTO LULA
O cientista político e consultor Rui Tavares Maluf lembra que, no primeiro turno, a dinâmica dos debates é afetada pela obrigação legal de chamar os principais candidatos para o debate presidencial - todos aqueles que integram partidos com mais de cinco deputados federais precisam ser convidados, segundo a regra em vigor neste ano.
"O (debate do) primeiro turno sempre teve este problema de conviver com um número grande de candidatos. Vamos concordar que fica maçante. É difícil produzir uma boa discussão com tanta gente, sem falar que vários dos que estão ali não têm realmente uma carreira política relevante e nem qualquer chance de chegar ao segundo turno", diz Maluf.
Geralmente, os debates presidenciais no Brasil não incluem uma avaliação formal de quem 'venceu' a discussão: ninguém é formalmente declarado vencedor de um debate - embora avaliações deste tipo possam ser feitas.
Direito de imagemAFP / NELSON ALMEIDA
Mesmo assim, os candidatos podem usar a participação nos debates a favor de suas campanhas - recortando trechos de suas atuações para serem distribuídos nas redes sociais, diz Rui Tavares Maluf.
"Às vezes, é mais importante transmitir convicção do que ter conteúdo, realmente. É muito mais a forma como o candidato transmite aquilo - se exaltado ou com serenidade - do que o que ele está falando propriamente. O importante é mostrar firmeza nas respostas, mesmo que uma checagem posterior mostre que aquilo que você disse tem pouca conexão com a realidade", diz o cientista político.
"Às vezes, o candidato até tem algo relevante a dizer, mas se sai mal - se gaguejar, se transparecer pouca firmeza, se cometer uma gafe. E isso pode acabar sendo usado contra ele", diz Maluf.
fonte: BBC
Mín. 19° Máx. 27°