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Domingo, o dia do feminicídio no Brasil

Domingo, o dia do feminicídio no Brasil

23/07/2023 às 10h54 Atualizada em 23/07/2023 às 13h54
Por: Redação
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

De cada cinco feminicídios registrados no país, um acontece aos domingos; fim de semana concentra 37% das ocorrências desse tipo de crime

Quando Suzana Silva e Lindojohnson Ferreira casaram, ganharam de presente do pai dela uma casinha na localidade de Mocamba, na cidade de Barras – a 130 km de Teresina, no Piauí. O casal namorava havia seis anos, e Suzana acabara de engravidar. Na casa que ganharam decidiram montar um bar, que funcionava anexo à residência. Ferreira tratou de vedar as entradas da casa: não queria os clientes olhando para sua esposa. Também vendeu a moto pilotada por ela. A jovem já não recebia mais visitas e também pouco visitava a família ou amigas. Só saía de casa na companhia do marido. As brigas se sucediam e, no começo de fevereiro de 2022, Suzana decidiu pedir o divórcio e voltar, pela terceira vez, para a casa dos pais. O motivo era sempre o mesmo: o ciúme doentio de Ferreira. Mas, assim como das últimas duas vezes, ela cedeu diante dos pedidos de desculpas e das promessas do marido. Combinaram que no domingo, 13 de fevereiro, ele iria buscá-la para passear em Barras. Ficaram juntos durante todo o dia e voltaram para a casa de Mocamba. No fim da tarde, ela entrou no chuveiro para tomar banho. Antes que saísse, o marido entrou no banheiro e atacou-a a facadas. A moça de 24 anos, mãe de um filho de 3, saiu correndo nua pela casa, em desespero, até chegar à porta do bar em busca de ajuda. Com o estabelecimento fechado, não encontrou ninguém. Na frente de casa, foi esfaqueada até perder as forças.

Cinco meses depois, no município de Feijó, região Norte do Acre, Lauana Gomes dos Santos, 22 anos, parda, uma moça bonita, de cabelos cacheados e olhos castanhos, não sobreviveria ao domingo 24 de julho de 2022. Vivia com o marido, Fábio Sousa, 26 anos, um casamento “cheio de brigas”. “Ele tentou enforcá-la duas vezes, ela corria e vinha aqui pra minha casa. Mas voltava pra ele”, conta Maria José Araújo Gomes, mãe de Lauana. Sobrevivente de um relacionamento abusivo, do qual se livrou ao abandonar o marido e criar sozinha os sete filhos, Maria José viu a história de violência se repetir com a filha do meio. Na última noite que passou com vida, Lauana e o marido tinham brigado. Segundo testemunhas relataram à polícia, ele estava bebendo na rua, como costumava fazer antes de agredi-la. Quando bateu na porta de casa, ela não quis abrir. Ele disse que queria só pegar uma mochila. Lauana permitiu, e a discussão começou – e só acabou com Lauana assassinada com doze facadas, na presença dos dois filhos, um de 4 anos, outro de 3 meses.

A moça do Piauí e a moça do Acre morreram em dois domingos. Para muitas brasileiras, domingo não é dia de festa, nem de missa, nem de churrasco, nem de pizza, nem de futebol. É dia de perigo e morte. De cada cinco feminicídios registrados no país em 2022, pelo menos um aconteceu aos domingos. Os fins de semana concentram 37% das ocorrências desse tipo de crime no país. Depois do domingo, o dia mais perigoso para as mulheres é o sábado (16,1% dos casos), seguido pela segunda-feira (15,3%). Nos demais dias da semana, a proporção variou pouco: 12,5% na sexta, 12% na quarta, 11,5% na terça e na quinta.

Os dados sobre a distribuição dos feminicídios ao longo dos dias da semana foram tabulados com exclusividade para a piauí pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Nesta quinta-feira (20), o FBSP divulgou seu Anuário, com um amplo panorama da violência no país a partir das ocorrências informadas pelos estados. Os números mostram que, no ano passado, a violência de gênero explodiu. Os feminicídios chegaram a 1.437, 90 a mais que no ano anterior, e a taxa por 100 mil habitantes subiu 6%. Os assassinatos de mulheres de modo geral também tiveram ligeiro aumento, de 3.965 para 4.034, e a taxa por 100 mil cresceu 1,2%. O número de estupros foi recorde, 74 930 ao ano, 205 por dia, um crescimento de 8,2% em relação ao ano anterior. As tentativas de feminicídio também aumentaram 16,9%.

A análise das mortes por dia da semana é mais um elemento para entender os padrões repetitivos e domésticos do feminicídio: em 2022, 53,6% dos assassinatos foram cometidos por companheiros e 19,4% por ex-companheiros; 69,3% dos crimes aconteceram dentro de casa. E os fins de semana, aos sábados e domingos, quando os casais ficam juntos, tentam se reconciliar, às vezes festejam, são o momento de maior risco. É quando as delegacias especializadas estão fechadas, as ruas, mais vazias, e a polícia, ocupada com desdobramentos de outros crimes.

“Em geral, no Brasil, os homicídios aumentam quando o fim de semana se aproxima, principalmente às sextas. As pessoas saem, há consumo de bebida alcoólica. No caso da violência de gênero, percebemos que ela aumenta no fim de semana, quando os casais estão juntos no espaço doméstico”, analisa Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo ela, o fato de os assassinatos de mulheres também terem crescido (e não só os feminicídios) mostra que não é possível atribuir o aumento de casos apenas a uma melhora do sistema de notificações. “Todos os assassinatos de mulheres cresceram, inclusive na contramão dos crimes contra a vida (que caíram). Há subnotificação, sim. Mas é possível dizer que morreram mais mulheres, seja lá qual tenha sido a tipificação.”

No domingo em que Suzana Silva, a jovem do Piauí, foi assassinada, outras nove mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Houve domingos ainda mais violentos: 30 de janeiro e 7 de agosto registraram onze feminicídios, ao lado do sábado 16 de julho. Na análise por horário, a noite concentra metade dos casos: 29,8% dos feminicídios de 2022 aconteceram das 18h às 23h59, e 21,1%, da meia-noite às 5h59.

 

Observar padrões de um crime também ajuda a perceber se ele é evitável – caso do feminicídio. E permite traçar políticas de prevenção, focalizando essas políticas ao máximo. Um exemplo prático seria, por exemplo, dar prioridade a denúncias de violência doméstica durante os dias e horários de maior risco de feminicídio. Assegurar que equipamentos públicos estejam abertos nos fins de semana, ainda que em regime de rodízio. E criar uma rotina de socorro rápido às mulheres ameaçadas. “Sabemos da dificuldade de alguns serviços públicos funcionarem em regime ininterrupto. Uma colega pesquisadora alertou sobre uma cidade onde o 190 não funciona nos fins de semana. Mas sabemos de soluções que as equipes de atendimento encontram, como o caso de uma que manteve a vítima numa pousada, sob proteção, até que o serviço especializado abrisse na segunda-feira”, relata Samira Bueno, do Fórum Brasileiro.

As mortes de Suzana, em Barras, no Piauí, e Lauana, em Feijó, no Acre, também ajudam a contar a história da interiorização dos feminicídios pelo Brasil. O Acre, terceiro estado em taxa de feminicídios no país, até conseguiu reduzir os casos em relação ao ano passado, e a capital, Rio Branco, não teve um único registro de feminicídio. Mas o município de Feijó, onde vivia Lauana, concentrou 30% das ocorrências desse tipo de crime no estado. A interiorização dos feminicídios acompanha a interiorização das mortes violentas de modo geral, mas tem algumas dinâmicas próprias – pode se manifestar de forma mais aguda em locais onde há presença de facções criminosas ou uma estrutura mais precária de atendimento.

Superintendente em gênero do Ministério Público do Acre, a economista Antonia Tavares acompanha desde 2009 os dados sobre violência contra a mulher no estado. Integra o Observatório de Violência de Gênero do Centro de Atendimento à Vítima, órgão auxiliar do MP-AC, que pelo segundo ano consecutivo produz um relatório com estatísticas aprofundadas sobre o tema. O Centro faz um trabalho de apoio às vítimas, oferecendo suporte em questões psicológicas, sociais e legais. Tavares não esconde a angústia diante de tantos casos de famílias desfeitas pelos feminicídios. Nem se conforma com a impunidade: “Muitos dos que mataram são considerados pessoas de bem. Têm bom comportamento na cadeia e costumam cumprir uma pena pequena.”

Outro drama é o dos órfãos do feminicídio. Os filhos de Lauana estavam com ela no momento do crime. O mais velho, hoje com 5 anos, se lembra de tudo, pergunta pelo pai [que está preso] e pela mãe. “Ele já contou pra gente o momento em que correu para se esconder debaixo da cama”, diz Maria José, que está criando os dois netos e pediu na Justiça a guarda das crianças.

O pai de Suzana, o empreiteiro de obras Antônio José da Silva, também está criando o neto. E acredita que o crime já havia sido premeditado pelo genro para aquele domingo. Dias após o assassinato da filha, Silva conversou com o pai do assassino – e o homem contou que, na semana do crime, o filho lhe confidenciou que passaria alguns dias fora da cidade a partir da segunda-feira. O pai de Suzana acredita que o aviso não era à toa: no final de semana, o movimento na cidade sempre diminui, o que facilitaria a fuga. O rapaz só foi preso sete meses depois. O pai recorda, com tristeza, uma conversa em que tentou convencer a filha a deixar o marido. “Naquele domingo, tudo mudou. Ela voltou para ele e, para mim, voltou em um caixão.”

Fonte: Revista Piaui

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