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Da alfabetização tardia à universidade: estudo como caminho de transformação

Com rotina de estudos organizada em casa, apoio da escola e incentivo da família, Gabriele supera obstáculos e chega ao Ensino Superior para mudar sua realidade e a do filho

07/02/2026 às 16h00
Por: Redação Fonte: Claudia Lessa – Ascom SEC
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Viviane Macedo
Viviane Macedo

Alfabetizada tardiamente, aos 11 anos, Gabriele Souza Costa poderia ter aceitado como limite aquilo que, na infância, foi apenas um começo mais difícil. Com o tempo, ela entendeu o valor do esforço diário e fez do estudo a principal ferramenta para acessar oportunidades e redesenhar o próprio futuro. Aos 21 anos, a egressa do Colégio Estadual de Tempo Integral de Biritinga, no Território do Sisal, comemora uma conquista que simboliza virada de página: a aprovação no Ensino Superior. Pelo Sisu 2026, garantiu vaga na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), no curso de Agronomia, e define o resultado como a prova concreta de que a educação transforma trajetórias.


Gabriele, Miguel e D. Gracinha

Dentro de casa, a avó Maria das Graças de Souza, a dona Gracinha, 72 anos, sempre fez da experiência de quem não pôde estudar uma lição para os netos: escola é caminho de mudança. Quando Gabriele engravidou, a família viveu o impacto e a rotina precisou ser reorganizada, mas o incentivo para o retorno aos estudos se tornou regra. “Estude para Deus ajudar a conseguir um serviço melhor. Sem os estudos, a gente não é nada”, repetia a avó, reforçando que a permanência na escola poderia abrir portas que a vida, até ali, não tinha oferecido.

Na escola, Gabriele também encontrou acolhimento e estímulo para seguir. Professores e gestão do Colégio Estadual de Tempo Integral de Biritinga tiveram papel decisivo para que ela não desistisse. “Eu só tenho elogios e gratidão. Quando eu pensava em parar, eles estavam ali, tirando dúvidas, motivando e me ensinando”, contou. Ela destaca, em especial, o professor Mateus, de Sociologia, que a apoiou desde o retorno após a licença-maternidade.

Sem condições de pagar cursinho, Gabriele montou a própria estratégia de preparação: conciliava o tempo entre o colégio, os cuidados com o filho Miguel e as tarefas de casa, mas reservava diariamente duas horas para estudar pelo celular, utilizando conteúdo da escola e materiais disponíveis. A disciplina, construída no cotidiano, virou método — e o método virou resultado.


Profª Joanne de Jesus e o Prof Mateus Tavares

Para o professor Mateus Tavares, a aprovação tem um peso simbólico evidente. “A história de vida dela já revela o valor dessa vitória. Uma menina alfabetizada aos 11 anos torna essa conquista ainda mais valiosa”, avaliou. A professora de Língua Portuguesa, Joanne de Jesus, lembra que um traço acompanhou a estudante desde cedo: o gosto pela leitura. “Isso me chamou muita atenção. Eu a incentivei nesse hábito e fui fomentando questionamentos para que ela alçasse novos voos”, disse. O diretor Mário Tierres afirma que o resultado trouxe alegria, mas não espanto. “Era esperado esse sucesso, pela dedicação, empenho e liderança em sala.”

Mãe solo, Gabriele tem uma motivação objetiva: mudar a realidade financeira da família e garantir dignidade ao filho. “A única saída para transformar a minha realidade é estudar e sonhar com um futuro digno”, afirma, ao projetar metas como trabalhar na área, seguir na pós-graduação, conquistar a casa própria e oferecer mais estabilidade a Miguel. As dificuldades de aprendizagem e de concentração, que retardaram sua alfabetização, ficaram para trás. No lugar, cresceu a consciência de que as escolhas do presente constroem as oportunidades do amanhã.

Desempregada, dependente do apoio da família e de programa social — depois de experiências informais de trabalho — Gabriele se prepara para aproveitar a chance de se graduar em Agronomia. Na jornada universitária, contará com serviço de creche para acolher o filho e com uma rede de apoio familiar formada pela avó, tias e primas, além de ajuda eventual da mãe, Rosilene, que mora em Inhambupe. “Estou buscando o meu sonho de melhorar de vida, principalmente a do meu filho. Já me sinto vencedora e grata por todo apoio que recebo da minha família e da escola”, conclui.

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