— Nunca usei em busca de uma onda — diz Seaman. — Usei para conseguir dormir à noite, porque não dormir o suficiente é um dos maiores gatilhos para episódios, e funcionava.
eaman, que continua usando diariamente, desde 2018 consegue obter os principais compostos da planta de Cannabis sativa mediante prescrição médica. Ela acha reconfortante saber que o medicamento agora passa por controles de qualidade e contém quantidades previsíveis da substância ativa.
As leis relativas à cannabis mudam de tempos em tempos. Em quase todos os países europeus, um dos seus ingredientes ativos, o canabidiol, ou CBD, é legal. Mas, na maioria dos casos, a cannabis para consumo pessoal não é legal, embora a maconha medicinal esteja cada vez mais difundida no continente.
— Não tenho crise há dois anos. A epilepsia pode ser fatal, por isso é muito possível que a cannabis tenha salvado a minha vida — celebra Seaman. No entanto, não se sabe com total certeza como a cannabis exerce o seu efeito.
— Entender como funciona nunca foi tão importante como agora, pois isso nos permitiria encontrar formas de utilizá-la na medicina e reduzir os possíveis efeitos nocivos do seu consumo para fins recreativos — explica Micah Allen, professor do Centro de Neurociência Integrada Funcional da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.
Acredita-se que alguns compostos de cannabis ajudam a aliviar a depressão, a ansiedade, o vício, a dor crônica, as doenças inflamatórias e as náuseas associadas à quimioterapia, entre outros problemas. E embora a cannabis possa ser utilizada de forma abusiva — algumas pessoas, como adolescentes ou mulheres grávidas, provavelmente deveriam evitá-la completamente – os cientistas europeus estão tentando encontrar uma forma de tirar o máximo partido das propriedades promotoras da saúde de alguns dos seus componentes.
Allen lidera um projeto de investigação que recebeu financiamento da União Europeia para desvendar os efeitos de alguns compostos de cannabis, como o CBD, na saúde humana. Esta iniciativa de cinco anos, denominada Cannabodies, terminará em janeiro de 2027.
Dos milhares de compostos produzidos pela planta cannabis, os de maior interesse médico são o grupo dos canabinoides, composto por mais de uma centena destes compostos. Entre eles, o CBD e o tetrahidrocanabinol, ou THC, são considerados os mais importantes clinicamente. Tanto o CBD como o THC desencadeiam a libertação de mensageiros químicos no cérebro que podem influenciar a sensação de dor, o humor, o sono e a memória. No entanto, o THC induz um estado de intoxicação que não é causado pelo CBD, o que dá origem ao uso indevido do primeiro.
Os canabinoides não curam nenhuma doença, mas modificam a forma como os sintomas, físicos ou psicológicos, são percebidos a nível consciente. Ao alterar ligeiramente o sistema nervoso, essas substâncias químicas podem modificar a percepção da dor de uma pessoa, por exemplo. Podem também alterar a resposta emocional a uma situação estressante e, pelo lado menos positivo, diminuir a motivação.
Pouco se sabe sobre como exatamente os canabinoides influenciam o cérebro e o corpo humano, uma vez que a maioria dos estudos foi realizada com animais.
— Este fato limita substancialmente a nossa capacidade de conceber tratamentos eficazes à base de canabinoides — diz Allen.
O projeto Cannabodies aborda a influência do THC e do CBD no que é conhecido como interocepção, ou seja, a percepção que as pessoas têm do estado interno dos seus corpos e como isso afeta as decisões. Concentrar a mente na fome, nos batimentos cardíacos ou na dor são exemplos de interocepção. Poderíamos perguntar-nos, por exemplo, se uma pessoa que sente menos dor física depois de consumir CBD tem maior probabilidade de exercer mais esforço ao realizar uma tarefa, ou se alguém que está mais concentrado nos batimentos cardíacos pode sentir-se mais ansioso depois de consumir THC.
Segundo Allen, as descrições que fazem das suas experiências pessoas que consomem canabinoides parecem indicar mudanças importantes a nível sensorial, mas nenhum estudo científico abordou esta questão.
— Muitos transtornos psiquiátricos têm a ver com a alteração da interocepção saudável. Portanto, se for demonstrado que os canabinoides têm efeitos terapêuticos nesta área, seria uma informação muito valiosa — explica o pesquisador, que pretende lançar as bases científicas para esta questão. — Queremos descobrir o que acontece no cérebro quando uma pessoa consome um produto de cannabis. Que vias neurais são estimuladas quando o CBD, o THC ou um placebo são ingeridos?
Para esta pesquisa, os participantes devem realizar tarefas durante uma ressonância magnética. Essencialmente, eles são instruídos a apertar um dispositivo com a mão ou expelir ar em um tubo em resposta a testes simples, que normalmente usam imagens que aparecem em uma tela, como se fosse um videogame. Recebem pontos por cada escolha correta e uma recompensa financeira de cerca de 100 coroas dinamarquesas (o equivalente a cerca de 13 euros) pela conclusão de uma tarefa.
A velocidade e a precisão das respostas, a disposição dos participantes em se esforçarem mais e a percepção de desconforto são alguns dos fatores que Allen estudará. O neurocientista pretende ampliar o conhecimento sobre os efeitos dos canabinóides na interocepção para avançar no objetivo de desenvolver novos tratamentos baseados em CBD ou THC que sejam seguros, eficazes e personalizados.
Problemas na absorção do CBD
O CBD é vendido na forma de óleo ou incorporado em novos alimentos e bebidas, e é agora amplamente vendido na Europa como um poderoso tratamento para inúmeros problemas de saúde, desde ansiedade ou artrite até doenças intestinais e esclerose múltipla. Mas há uma grande desvantagem nos produtos comercializados atualmente: a biodisponibilidade, ou seja, a proporção de um medicamento ou outra substância que entra na corrente sanguínea quando é introduzido no corpo.
Uma vez ingerido o ingrediente ativo de um produto CBD comprado numa loja, apenas uma pequena quantidade (só 6%) dele entra na corrente sanguínea e é disponibilizado para o cérebro. Consequentemente, é necessário consumir grandes quantidades de CBD para que tenha efeito.
Uma equipa de investigadores da Universidade do Minho, em Braga (Portugal), chegou agora a metade de um projeto de dois anos cujo objetivo é esclarecer os processos metabólicos que determinam a quantidade de CBD que o corpo pode absorver após a ingestão.
— Existe alguma variabilidade entre as pessoas, mas as razões não são exatamente conhecidas — explica Renata Vardanega, especialista em Bioengenharia e coordenadora de um projeto financiado pela UE, CBDHIGHBIO, que terminará em outubro de 2024.
Vardanega e a sua equipa estudam os fatores que determinam a quantidade do ingrediente ativo que é absorvida após o consumo de CBD. Depende, por exemplo, do que mais a pessoa comeu ou bebeu. Eles também trabalham para melhorar a absorção do CBD, combinando-o com um ácido graxo de cadeia longa durante a administração. Este método redireciona a via de absorção para evitar que o CBD seja metabolizado pelo fígado.
Uma terceira linha desta investigação tenta encontrar uma forma de aumentar a absorção do CBD combinando-o com a piperina, um composto derivado da pimenta preta. A piperina é um excelente biointensificador, por isso tem a capacidade de aumentar a biodisponibilidade de outra substância, segundo o professor Antonio Vicente, bioengenheiro do projeto.
— Estamos procurando maneiras de aproveitar essa propriedade para aumentar a biodisponibilidade do CBD assim que ele entrar no corpo — afirma.
O objetivo final do projeto é criar produtos comestíveis à base de canabinoides, como barras de chocolate, bebidas ou manteigas, que sejam muito mais potentes do que qualquer um dos produtos atualmente existentes, mas que contenham o mínimo possível de CBD.
— O que as pessoas consomem hoje é caro e não é tremendamente eficaz, e muitos acham desagradável ingeri-lo — comentou Vicente. —Achamos que podemos fazer muito melhor.