A conta é simples de enunciar e difícil de fazer. A pesquisa Genial/Quaest de 10 a 13 de julho (2.004 entrevistados, margem de dois pontos, registro BR-07161/26 no TSE) diz que Lula tem 49,4% dos votos válidos no cálculo mais generoso e 43,5% no mais avarento. Como se ganha no primeiro turno com metade mais um dos válidos, e não dos totais, o presidente precisa subir dos 40% declarados para algo perto de 46%. Faltam, conforme o humor de quem faz a conta, de um a quatro pontos. A oposição entendeu isso antes de muito aliado do governo: Flávio Bolsonaro já não disputa a eleição, disputa que exista um segundo turno. Joga na retranca, com o time rachado por dentro e a Polícia Federal rondando o vestiário, torcendo para segurar o empate até o apito. Quem precisa fazer o gol é o governo.
Foi nesse jogo que Donald Trump entrou de sola. E repare que o tarifaço não foi um gesto bruto; foi um gesto calculado. Trump taxou em 25% os produtos brasileiros, mas tirou da lista mais de oitocentos itens, o café, o suco de laranja, o ferro, os minerais de que a indústria dele não abre mão. Tirou, em suma, tudo o que encareceria a vida do eleitor americano e cobraria a conta dele mesmo. Sobrou o resto, e o resto tem nome, cidade e folha de pagamento: setores exportadores localizáveis um a um, cadeia por cadeia, município por município. A crise que Trump criou não se espalha feito névoa; ela cai em lugares certos. E crise que cai em lugar certo é crise que a política consegue pegar com a mão.
Por isso a pior resposta seria a retaliação que gente do próprio governo chegou a acenar. Se o Brasil taxar de volta, pega uma bomba que hoje está confinada a alguns setores e a distribui para a economia inteira, e de quebra troca o culpado: hoje quem machuca é Trump, a pedido dos Bolsonaro; no dia seguinte à retaliação, quem encarece o supermercado passa a ser Lula. O caminho é outro e nem é novo. Roosevelt fez isso nos anos 1930 e Keynes explicou por que funciona: o Estado encampa a demanda que o mercado externo engoliu. Levantar, setor por setor, o que deixou de ser vendido aos Estados Unidos; comprar produção para a merenda escolar e para os estoques públicos; abrir crédito emergencial com contrapartida de emprego, para não repetir a desoneração sem cobrança que a Dilma tentou e virou lucro de bolso; oferecer à China, à Índia, aos parceiros do BRICS aquilo que Washington recusou. Nada disso exige genialidade. Exige decisão.
Só que tudo isso passa pelo Congresso. Espaço fiscal, crédito extraordinário, programa de compras, tudo pede votação. E o Congresso de hoje tem dono de porteira: Hugo Motta na Câmara, Davi Alcolumbre no Senado. A ciência política brasileira contou essa história inteira. Sérgio Abranches batizou de presidencialismo de coalizão a obrigação permanente de comprar maioria; Argelina Figueiredo e Fernando Limongi mostraram que os presidentes das casas e o colégio de líderes decidem o que vai a plenário, quando vai e o que apodrece na gaveta; Gary Cox e Mathew McCubbins deram a esse arranjo, estudando o caso americano, o nome de poder negativo de agenda: não é preciso derrotar o governo em votação nenhuma, basta não pautar. E a gaveta tem preço tabelado. Emendas, orçamento secreto, cargos. Comprar pauta no varejo ficou caríssimo e, pior, não fideliza ninguém: paga-se tudo de novo na votação seguinte.
Acontece que existe outro caminho, e quem o desenhou foi o próprio Lula. Em 2022, o candidato repetia pela campanha que, para governar, ia “buscar os governadores”. Na época a frase passou como gentileza federativa. Não era. Era estratégia, e das boas, com lastro na literatura: Fernando Abrucio chamou os governadores de barões da federação, gente capaz de fechar bancada inteira na mão; David Samuels mostrou que deputado no Brasil se elege no vácuo da candidatura a governador, e não no desempenho nacional do partido. Quem manda na pauta é o presidente da Câmara; quem manda no voto é quem manda no território. Quando o Planalto oferece ao governador um projeto econômico que interessa ao estado dele, é o governador que passa a cobrar convergência da sua bancada, e obstruir o governo deixa de sair de graça. No primeiro mandato essa rota ficou no papel, porque o entorno presidencial não a executou. O tarifaço acaba de reabri-la, e com uma urgência que ninguém consegue fingir que não vê.
Porque o socorro federal não vai cair no abstrato. Vai cair em Santa Catarina, no Paraná, no Espírito Santo, no interior de São Paulo. Governador nenhum, de partido nenhum, recusa o programa que salva a agroindústria, o setor moveleiro ou a fruticultura do seu estado; recusar seria brigar com as elites econômicas que o elegem. E o governador que aceita vira fiador do programa no Congresso. Aí o jogo inverte. Em vez de o Planalto mendigar pauta a Motta e Alcolumbre, é o empresário taxado que pergunta, em voz alta e em ano de eleição, por que o senador do seu estado votou contra o dinheiro que segura o emprego da sua cidade. Parlamentar pode desprezar o presidente à vontade; não pode desprezar quem financia e organiza a eleição dele. Motta e Alcolumbre seguem com a chave da pauta na mão, só que cada semana de gaveta passa a custar voto na base de cada um dos seus liderados. O drible não tira o veto dos presidentes das casas. Tira o lucro do veto.
No fundo, é uma operação de conversão. Trump, Marco Rubio e os Bolsonaro deram a Lula, de graça, o que campanha nenhuma compra: o papel de defensor do país contra uma agressão que brasileiros foram pedir lá fora. Cada setor socorrido é um grupo que muda de lado ou, no mínimo, se cala. Cada governador atendido traz junto uma bancada. Cada programa com endereço vira argumento que aparece no contracheque antes de aparecer no palanque. A inflação de alimentos cedendo e o juro sob pressão ajudam, claro, mas o ponto não é esperar a economia melhorar sozinha; é fazer política com a crise que o adversário fabricou. Transformar os 25% de Washington nos quatro pontos que faltam para a eleição no primeiro turno. A extrema direita reza pelo milagre do golpe com apoio estrangeiro e joga fechada atrás da bola. O governo tem a posse, tem o mapa dos setores atingidos e tem a jogada ensaiada, que o próprio Lula cantou em 2022. Falta bater para o gol. E o país todo agradeceria.