A pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta seu momento mais crítico após a repercussão do chamado "Caso Vorcaro". O escândalo, detonado pelo vazamento de um áudio em que o parlamentar cobra dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, provocou um forte abalo nos três principais pilares de sustentação de sua candidatura: o eleitorado evangélico, o agronegócio e o mercado financeiro.
Segundo reportagem do jornal O Globo, embora aliados adotem um tom de cautela publicamente, interlocutores admitem nos bastidores que o episódio interrompeu abruptamente a aproximação que o senador vinha construindo com empresários, investidores e pastores influentes.
Entre as lideranças religiosas alinhadas ao bolsonarismo, o impacto foi imediato. No grupo de WhatsApp “Aliança” — que reúne nomes de peso como Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes —, o caso monopolizou os debates.
O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, classificou o episódio como um “balde de água fria” e criticou as explicações dadas pela campanha. Já o pastor Silas Malafaia foi enfático ao cobrar esclarecimentos:
"A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar", alertou Malafaia.
Diante do desgaste do senador, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a ganhar tração nos bastidores como uma alternativa viável para a disputa presidencial, por garantir a transferência direta de votos do eleitorado conservador. Questionada publicamente sobre o caso, Michelle evitou polemizar e afirmou que o próprio Flávio é quem deve se posicionar.
No mercado financeiro, a crise dominou as rodas de conversa de investidores brasileiros durante a Brazil Week, em Nova York. O desconforto do setor aumentou após a revelação de que Flávio Bolsonaro procurou Daniel Vorcaro mesmo após a primeira prisão do banqueiro, quando este cumpria medidas restritivas em São Paulo.
Buscando conter os danos à sua imagem de "bolsonarista moderado" e focado na responsabilidade fiscal, Flávio desembarcou em São Paulo para almoços reservados com executivos da Faria Lima e empresários dos setores de turismo, hotelaria e serviços.
Contudo, a instabilidade — refletida até mesmo em oscilações no mercado de câmbio após as revelações do site Intercept Brasil — fez com que operadores passassem a citar com mais frequência alternativas na direita liberal, com destaque para o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).
No setor produtivo rural, o apoio ao bolsonarismo segue majoritário, mas o desejo por uma candidatura menos exposta a turbulências políticas cresceu.
Desde a desistência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o agronegócio já demonstrava preferência por perfis mais executivos. Com o agravamento do caso envolvendo o Banco Master, os holofotes do setor se voltaram para:
Ronaldo Caiado (PSD): Governador de Goiás, com forte interlocução histórica junto à Frente Parlamentar Agropecuária (FPA).
Romeu Zema (Novo): Visto com bons olhos pelo discurso liberal e gestão empresarial.
Apesar do cenário adverso, integrantes da bancada ruralista, como o deputado Lafayette de Andrada (PL-MG), tentam minimizar o impacto, classificando a crise como uma "marola que passa".
A cúpula do Partido Liberal (PL) ligou o sinal de alerta. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, admitiu sob pressão que estabeleceu um prazo de 15 dias para monitorar o impacto do escândalo nas pesquisas de opinião e avaliar se Flávio Bolsonaro manterá viabilidade eleitoral para o pleito presidencial. Posteriormente, Valdemar tentou suavizar a declaração, afirmando que o senador segue sólido.
A crise política coincide com uma reformulação forçada na comunicação da campanha. O publicitário Marcello Lopes, o "Marcellão", deixou a equipe do senador após uma semana considerada desastrosa para a imagem do pré-candidato.