A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro apresentou à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República uma nova proposta de acordo de delação premiada no âmbito das investigações do caso Master, que apura suspeitas de fraudes bilionárias no sistema financeiro. O documento, mantido sob sigilo, continua em fase de negociação e será analisado pelos investigadores, que poderão solicitar complementações, marcar depoimentos e discutir eventuais benefícios antes de qualquer avanço formal.
Essa é a segunda tentativa de Vorcaro de firmar um acordo. Na primeira, segundo o g1, tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República consideraram fraco o conteúdo apresentado e pediram novas informações. Agora, a defesa busca demonstrar que os novos anexos podem contribuir para ampliar a responsabilização de outros envolvidos e esclarecer a dinâmica das supostas fraudes.
Segundo informações publicadas pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, o material já provocou tensão com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator do caso. Mendonça teria demonstrado insatisfação com os anexos apresentados pela defesa, por entender que o conteúdo não corresponde, em profundidade, ao que já foi apurado pela Polícia Federal.
A proposta de delação, organizada em anexo temáticos, precisaria explicitar relações de Vorcaro com diferentes pessoas, incluindo políticos, com predominância de figuras do Centrão. A ausência de esclarecimentos sobre a relação entre o ex-banqueiro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, citado em conversas privadas atribuídas a Vorcaro, é outro ponto de cobrança, em razão da aplicação de R$ 400 milhões em títulos de alto risco do Master, dinheiro esse do fundo de pensão dos servidores do Amapá, comandado por um aliado de Alcolumbre, segundo as informações mencionadas pela Folha.
Mesmo diante das falhas apontadas, a tendência é que PF e PGR confrontem os dados entregues pela defesa com o material já reunido na Operação Compliance Zero, incluindo informações extraídas do celular do ex-banqueiro. Conforme o Estadão, a delação só deve avançar caso os investigadores entendam que os anexos acrescentam elementos inéditos e relevantes às apurações em curso.
A Operação Compliance Zero investiga fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master e à tentativa de compra da instituição pelo Banco de Brasília, o BRB. Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março, na terceira fase da operação, após novos elementos da investigação apontarem, segundo decisão judicial, suspeitas de intimidação a jornalistas, ex-funcionários e empresários, além de possível acesso prévio a dados da apuração.
As investigações também avançaram sobre supostos esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e organização criminosa envolvendo operações entre o Master e o BRB. Em abril, a Reuters informou que decisão do STF citou indícios de carteiras de crédito fictícias e suposto pagamento de vantagens indevidas em operações ligadas às duas instituições.
No Supremo, a avaliação atribuída ao caso é de que a devolução integral dos recursos desviados será condição central para eventual homologação da delação. A exigência envolveria valores mantidos no Brasil e no exterior, com ressarcimento imediato, sem parcelamento nos moldes de acordos firmados em outras grandes operações, como a Lava Jato.
Os próximos passos envolvem a análise técnica da PF e da PGR, a verificação da consistência dos anexos, a possibilidade de novos depoimentos e a avaliação sobre a utilidade concreta das informações. Caso os órgãos entendam que a proposta não acrescenta fatos relevantes ou não atende às exigências de ressarcimento, o acordo poderá ser rejeitado. Para ter validade jurídica, qualquer delação ainda precisará ser homologada por André Mendonça no STF.