O avanço das alianças entre facções criminosas no Brasil já alcança ao menos 17 estados, envolvendo organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP). O movimento tem caráter estratégico e busca ampliar territórios, fortalecer mercados ilegais e maximizar lucros, segundo levantamento baseado em investigações da Polícia Federal, das polícias civis e dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, informa a Folha de São Paulo.
A apuração identificou a expansão dessas articulações, com destaque para o crescimento do TCP fora do Rio de Janeiro e sua presença em ao menos dez estados, muitas vezes em parceria com o PCC para enfrentar o Comando Vermelho, rival histórico das duas organizações.
O estudo considera apenas alianças envolvendo essas três facções nacionais e não inclui acordos restritos a grupos regionais. Também não abrange estados onde uma única organização atua de forma dominante, como São Paulo, reduto tradicional do PCC. Ainda assim, o levantamento reforça a presença nacional das principais facções, que já operam em todo o território brasileiro, com hegemonia em 13 unidades da federação.
De acordo com David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crime organizado brasileiro deixou de ter caráter local e passou a operar em escala nacional e internacional. “As duas principais facções, PCC e Comando Vermelho, operam com foco no negócio da droga em uma perspectiva transnacional. O Brasil é utilizado como um hub logístico para fazer a mercadoria circular e acessar mercados altamente lucrativos na Europa, Ásia e África”, afirmou.
O atual cenário tem origem no rompimento entre PCC e CV, ocorrido entre 2016 e 2017, após o assassinato de Jorge Rafaat, intermediador do tráfico na fronteira com o Paraguai. A partir desse episódio, as duas organizações passaram a adotar estratégias distintas: enquanto o PCC consolidou um modelo voltado à logística e ao comércio em larga escala, o CV manteve foco no controle territorial armado e na exploração de atividades locais.
Nesse contexto, o TCP surge como uma força em expansão, com atuação semelhante à do Comando Vermelho, embora ainda distante da dimensão das duas maiores facções do país. Para o pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a formação dessas alianças está diretamente ligada às rivalidades históricas. O TCP, segundo ele, tem se consolidado como alternativa para grupos que resistem ao avanço do CV em diferentes regiões.
Manso também aponta uma tendência de redução no número total de facções, resultado de uma estratégia de mercado. “Os grupos perceberam que quanto menos guerra, menos custo. Essa mudança reflete uma busca por lucro e vantagens competitivas no mercado de drogas e do crime em geral, o que resultou em uma redução da violência e dos homicídios no Brasil”, disse.
No Espírito Santo, o cenário ilustra essa dinâmica. A principal organização local, o Primeiro Comando de Vitória (PCV), atua em aliança com o Comando Vermelho, que fornece drogas e logística, enquanto o grupo capixaba mantém autonomia regional. No entanto, divergências internas levaram parte dos criminosos a buscar alternativas, abrindo espaço para a atuação do PCC no estado a partir de 2017.
Segundo o delegado Guilherme Eugênio, do Centro de Inteligência e Análise Telemática do Espírito Santo, parte desses grupos encontrou no TCP uma forma de acesso indireto ao PCC. “Algumas pessoas não queriam se aliar ao PCC porque a adesão implica perda de autonomia, parte desses grupos se aproximou do TCP, que funciona como intermediário para acessar a droga do PCC sem se submeter integralmente à sua hierarquia”, explicou.
O combate a essas organizações tem se concentrado no desmantelamento das lideranças e dos esquemas financeiros, especialmente os ligados à lavagem de dinheiro. As investigações também priorizam a cooperação entre estados, diante da atuação nacional das facções.
Nesse cenário, estruturas como as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficcos) e os Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos) representam uma mudança no enfrentamento ao crime, com maior integração entre órgãos como Polícia Federal, polícias civis e Ministério Público.
Para especialistas, a troca de informações e a coordenação nacional se tornaram elementos centrais no combate ao crime organizado, substituindo modelos antigos baseados apenas em patrulhamento ostensivo e prisões em flagrante. A nova dinâmica reflete um cenário em que as facções atuam como redes estruturadas, com estratégias empresariais voltadas à expansão e à maximização de lucros em escala global.