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Empreendedorismo feminino ganha força no Brasil e impulsiona economia criativa, mas ainda não dá para comemorar
Com mais de 10,4 milhões de mulheres à frente de negócios, protagonismo feminino avança em setores como serviços, comércio e cultura, apesar de desafios estruturais como acesso ao crédito e desigualdade de oportunidades
08/03/2026 09h14
Por: Redação Fonte: Brasil 61
Foto: Freepik

O protagonismo feminino no empreendedorismo brasileiro vai muito além da celebração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. Nos últimos anos, mulheres têm ampliado sua presença na liderança de negócios e consolidado sua atuação em diferentes segmentos da economia, incluindo áreas diretamente ligadas à economia criativa.

De acordo com relatório técnico do Sebrae referente ao quarto trimestre de 2024, o Brasil possui atualmente 30,4 milhões de donos de negócios, sendo 10,4 milhões mulheres. O número representa um recorde na série histórica e revela um crescimento aproximado de 33% na última década, consolidando a força feminina no ambiente empreendedor.

Grande parte desse crescimento ocorre em setores como serviços, comércio e atividades criativas, áreas nas quais o talento, a inovação e a capacidade de adaptação são fatores determinantes para o sucesso. Hoje, 57% das empreendedoras atuam no setor de serviços e 27% no comércio, segmentos que incluem desde gastronomia e moda até produção cultural, comunicação, design e projetos ligados à economia criativa.

Esse movimento tem sido impulsionado por iniciativas institucionais voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo feminino. Um dos principais exemplos é o trabalho do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), ligado à Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB). A entidade atua na ampliação das oportunidades de liderança e na redução de fragilidades estruturais que ainda impactam a trajetória profissional das mulheres.

Para a presidente do CMEC, Ana Claudia Brada Cotait, o primeiro passo para quem deseja iniciar um negócio é a formalização. Segundo ela, empreender de forma estruturada amplia as oportunidades de crescimento e acesso ao mercado. “A mulher formalizada tem um campo maior de atuação e de ganho de mercado”, afirma. A qualificação também aparece como um fator decisivo para ampliar a presença feminina em posições de liderança. “Para ocupar um cargo de liderança, seja como CEO, parlamentar ou empreendedora de serviços, a qualificação é extremamente necessária”, destaca Cotait.

Desigualdades ainda persistem

Apesar do avanço, o cenário ainda apresenta desafios significativos. No quarto trimestre de 2024, as mulheres representavam 51,7% da população em idade ativa, mas apenas 34,1% dos donos de negócios no país.

O acesso ao crédito continua sendo uma das principais barreiras. Segundo relatório do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), apenas cerca de 25% dos recursos destinados a pequenos negócios chegam às mulheres, o que reduz a capacidade de investimento em inovação, estoque e expansão.

Além disso, estudos do Sebrae apontam que empreendedoras costumam pagar taxas de juros mais altas, especialmente no caso das microempreendedoras individuais.

Outro fator relevante é a chamada jornada múltipla enfrentada pelas mulheres. De acordo com o Instituto Rede Mulher Empreendedora, 58,3% das empresárias também são chefes de família, acumulando responsabilidades profissionais, domésticas e de cuidado com os filhos.

Dados do Sebrae indicam ainda que as mulheres dedicam pelo menos o dobro de horas que os homens às atividades domésticas e ao cuidado com a família. Mesmo assim, nos últimos 12 anos, a presença feminina como empregadora ou trabalhadora por conta própria cresceu 42%.

Hoje, dois terços das empreendedoras brasileiras são mães, e o rendimento médio mensal dessas empresárias gira em torno de míseros R$ 2,8 mil.

As desigualdades raciais também impactam o setor. Estudos do Sebrae apontam que negócios liderados por mulheres negras tendem a ser menores, menos formalizados e com renda média inferior, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

Economia criativa e redes de apoio

Nesse contexto, o empreendedorismo feminino também se consolida como uma importante força motriz da economia criativa, setor que reúne atividades baseadas em conhecimento, cultura, inovação e produção intelectual.

Eventos internacionais têm buscado fortalecer essa rede de mulheres empreendedoras. Um exemplo foi a quinta edição do Women Entrepreneur Forum (WE Forum), realizada em Brasília, reunindo empresárias, especialistas e lideranças de diferentes países.

O encontro promoveu debates sobre liderança feminina global, inovação e cooperação internacional, além de rodadas de networking voltadas à geração de negócios.

Para Monica Monteiro, presidente do capítulo brasileiro da Women’s Business Alliance do BRICS, o fortalecimento dessas redes é essencial.

“As mulheres precisam caminhar em rede. Essa conexão fortalece nossa proteção social, tanto na área financeira quanto na área de negócios”, afirmou.

A diversidade de experiências também foi destacada durante o evento. Para Carla Pinheiro, presidente do Conselho Empresarial de Mulheres da FIRJAN, o diálogo internacional contribui para ampliar soluções e oportunidades.

“Quando diferentes países e culturas compartilham experiências, percebemos que muitos desafios são comuns. Essa troca é fundamental para avançarmos”, destacou.

Cooperação internacional e novos mercados

O fórum também marcou a assinatura de acordos de cooperação internacional com Moçambique e Índia, com foco na capacitação de empreendedoras, incentivo à formalização de negócios e troca de experiências em áreas como inovação e inteligência artificial.

Outra iniciativa apresentada foi o Programa Mulheres Globais, desenvolvido em parceria entre a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a ApexBrasil. O projeto busca ampliar a presença internacional de empresas lideradas por mulheres, especialmente por meio do comércio eletrônico.

O programa é voltado para empresas brasileiras exportadoras ou potenciais exportadoras comandadas por mulheres, oferecendo capacitação e apoio para inserção em mercados internacionais.

Caminhos para fortalecer o empreendedorismo feminino

Especialistas apontam que a consolidação do protagonismo feminino na economia depende de políticas públicas capazes de reduzir desigualdades estruturais. Entre as principais medidas defendidas estão:

Com mais de 10,4 milhões de mulheres empreendendo no Brasil, o protagonismo feminino já se consolida como um dos principais motores de transformação econômica e social no país.

Ao combinar inovação, criatividade e capacidade de liderança, mulheres empreendedoras seguem ampliando seu espaço nos negócios e contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento da economia brasileira.