Brasil Previdência Social
Benefícios do INSS acima do mínimo terão reajuste menor que a inflação em 2026, e o governo chama isso de “correção”
Reajuste abaixo da inflação empurra aposentados para o piso previdenciário, corrói o poder de compra e expõe uma escolha política que penaliza quem contribuiu mais para o sistema
19/01/2026 07h49 Atualizada há 1 semana
Por: Redação Fonte: Redação

Aposentados empobrecidos e desesperados

Em 2026, os benefícios do INSS acima do salário-mínimo terão reajuste menor do que a inflação. É o tipo de decisão que, se atingisse banqueiros, grandes investidores ou altos salários do topo do serviço público, não passaria. Mas como o alvo são aposentados e pensionistas — gente que já trabalhou, já contribuiu, já pagou —, a perda é empurrada com naturalidade, como se fosse inevitável.

Não é inevitável. É escolha política.

O aumento do salário-mínimo provoca reajustes em cascata: alimentação, remédios, aluguel, serviços, transporte. Todo mundo sente. Só que, para quem recebe acima do mínimo no INSS, a resposta do Estado é simples: “aguente”. O governo autoriza a corrosão lenta do benefício, ano após ano, sabendo exatamente o que está fazendo: reduzir o valor real das aposentadorias até que a maioria seja puxada para perto do piso.

E isso acontece apesar da pessoa ter contribuído por décadas com a promessa de receber uma renda proporcional. A Previdência Social não é caridade. É contrato. O trabalhador paga mês a mês, com desconto obrigatório, para ter segurança no fim da vida. Mas a política adotada faz o contrário: transforma a aposentadoria em um benefício cada vez mais “mínimo”, mesmo para quem pagou muito mais do que o mínimo.

A engrenagem dessa injustiça é simples e por isso mesmo, mais grave. O sistema cria duas classes de aposentados:

Ou seja: o governo reconhece que é preciso repor inflação e garantir ganho real, mas só para uma faixa. Para a outra, aplica um regime de desvalorização programada.

E há um detalhe ainda mais perverso: embora o IPCA seja o índice “oficial” mais amplo, os reajustes do INSS se baseiam no INPC. Quando o INPC fica abaixo do IPCA, quem recebe acima do mínimo perde poder de compra mesmo quando o governo tenta vender a narrativa de “reajuste pela inflação”. Na vida real, isso significa remédio cortado, comida pior, consulta adiada, aluguel apertado e o Estado fingindo que está tudo certo porque publicou um percentual no Diário Oficial.

O senador Paulo Paim (PT-RS) resumiu o efeito prático dessa política: o aposentado que ganhava mais vai sendo achatado até virar piso. E isso não é acidente do sistema, é projeto. “Eu recebia cinco, estou recebendo três”, dizem muitos com o passar dos anos. Esse empobrecimento não cai do céu: é fabricado.

Paim menciona um projeto aprovado no Senado e travado na Câmara que prevê recomposição gradual das perdas durante cinco anos. Mas aqui vai o ponto político que ninguém quer encarar: gradualismo é a desculpa perfeita para perpetuar o roubo. Aposentado não vive de promessa para daqui a cinco anos. Vive de farmácia hoje. De mercado hoje. De conta de luz hoje. Quem contribuiu a vida inteira não pode ser tratado como “custo” a ser reduzido em parcelas.

Em 2026, a diferença entre inflação e reajuste será de 0,36 ponto percentual. Parece pouco no discurso. No bolso, é punição. Para quem recebe o teto do INSS, isso dá cerca de R$ 350 de perda real em um único ano. E a conta se repete, acumulando, como ferrugem: lenta, constante e destrutiva.

Esta política não é recente, vem de 2003, no primeiro mandato do presidente Lula da Silva. 

A "Política de Valorização": Desde 2003, passou-se a aplicar reajustes que consideravam a reposição da inflação do ano anterior (geralmente medida pelo INPC) mais um aumento baseado no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores.

Enquanto o mínimo era reajustado para recuperar o poder de compra, quem recebia acima do mínimo ficava apenas com o percentual da inflação e, cada vez mais, com a aposentadoria reduzida.

Atualidade: A regra de valorização com aumento acima da inflação foi retomada em 2023/2024, estendendo-se para 2025 e 2026, com o objetivo de garantir ganhos reais contínuos apenas ao salário-mínimo. 

No fim, a mensagem política é cristalina: o Estado mantém a propaganda de “proteção social”, mas administra a Previdência como um mecanismo de ajuste fiscal em cima de quem não tem lobby, não tem manchete diária e não tem como pressionar.

E enquanto isso, chamam de “reajuste”.

Nadia Freire
Editora