Saude Saúde
Vida real por trás do jaleco: cresce número de pacientes que escolhem médicos considerando gênero, raça e origem
À procura de profissionais de saúde, pacientes pesquisam cada vez mais sobre raça, renda e vivências de médicos e psicólocos antes da consulta
10/12/2023 09h17
Por: Redação Fonte: O Globo
Pacientes se sentem mais acolhidos por profissionais de saúde com vivências semelhantes — Foto: Freepik

É certo que profissionais de saúde precisam entender a realidade do paciente. No entanto, durante uma consulta ou exame, há distâncias que ultrapassam as barreiras do consultório médico e perpassam vivências, traumas e especificidades — que muitas vezes não são compreendidas ou nem chegam a ser pensadas.

Foi essa lacuna que fez a coordenadora de comunicação Edilana Damasceno, de 22 anos, procurar uma profissional que, assim como ela, fosse negra. Ela faz acompanhamento psicológico há cerca de seis anos, e suas experiências iniciais com psicólogas brancas a fizeram sentir que, com a mudança, teria maior compreensão ao relatar seus problemas.

— Teve uma situação racista que aconteceu comigo que eu relatei pra ela. Eu falei como tinha ficado com raiva, mas sei que isso sempre acontece comigo porque eu sou uma mulher preta — diz Edilana. — Em dado momento, ela (a psicóloga) disse assim: ‘será que às vezes o preconceito não está em você?’ — acrescenta.

A abordagem usada pela psicóloga fez a coordenadora entender que por mais que encontrasse profissionais que demonstrassem empatia, suas dores só seriam de fato compreendidas por quem compartilhasse a mesma vivência. Hoje, ela faz terapia com uma mulher negra e do candomblé, que consegue entender inclusive o cruzamento de sua vida pessoal e espiritual.

— Eu sei que, na verdade, nossos psicólogos não precisam validar nossos sentimentos. Mas isso é importante pra gente, principalmente quando você é uma mulher negra, que vive constantes situações de desumanização, de invalidação dos nossos sentimentos — constata Edilana.

Apesar de ser mais sentida — ou falada — na saúde mental, a questão também atinge outras áreas e minorias — ou maiorias minorizadas, como é o caso da população negra — que não se sentem de fato compreendidas no atendimento de saúde. Por isso, elas procuram médicos, psicólogos e demais especialistas que ofereçam muito mais que um estudo em determinada área: a experiência de vida.

Andrea Hercowitz é pediatra, hebiatra, coordenadora do Grupo Médico Assistencial do Hospital Israelita Albert Einstein e autora de livros sobre saúde da população LGBTQIAPN+. Com trabalho focado na população jovem, ela conta que a antipatia de profissionais de saúde chega a impedir o acesso à direitos básicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

— Já ouvi de uma mãe: ‘Levei minha filha para tomar vacina na UBS (Unidade Básica de Saúde) e na hora que a enfermeira olhou e identificou que era uma pessoa trans falou que ‘não entendia disso’ e que não ia aplicar’ — revela Hercowitz. — Como se braço não fosse braço, não muda nada —continua.

Na avaliação da coordenadora do GMA, grupo do Einstein criado para reunir profissionais de saúde em atualizações e discussões sobre diversos temas, como o acesso à saúde da população LGBT, existem iniciativas que tentam agregar essas noções a médicos e psicólogos, sobretudo na formação desses profissionais, como congressos estudantis e ligas acadêmicas. No entanto, ainda são poucas e embrionárias — e costumam partir da dor de pacientes que começam a atuar no outro lado da mesa do consultório.

Localizada no Rio de Janeiro, a clínica médica-odontológica Ayo Saúde nasceu dessa forma, de acordo com os fundadores Alexandre Severo e Victor Hugo de Paula, que são dentistas, e a médica Juliana Peres. A ideia do espaço de saúde exclusivo para profissionais negros trabalharem surgiu após recorrentes episódios de racismo que aconteceram com os sócios.

— Inicialmente, a clínica surgiu pensando muito mais no nosso lado, mas começamos a ver que existia uma demanda muito grande dos pacientes por um atendimento sem julgamentos — explica Juliana.

Entre as queixas odontológicas, por exemplo, a médica conta que é comum ouvir relatos de pessoas que tinham desistido de cuidar da saúde bucal após ouvirem questionamentos como “por que você deixou a sua boca chegar neste estado?”. A conduta, na opinião de Juliana, desconsidera contextos de vida, medos e questões além da boca. E os exemplos se expandem para as mais diversas especialidades.

Em junho deste ano, a ginecologista Helena Malzac Franco virou ré na Justiça após dizer a uma paciente de 19 anos que a maioria das mulheres negras tem cheiro forte nas partes íntimas: “É muito comum. Não é 90%, mas a gente coloca uns 70%. Tem a ver com a melanina também.” A consulta foi gravada pela executiva Luana Génot, madrinha da menina, e o caso foi revelado pelo “Fantástico”, da TV Globo.

Além de um diagnóstico mais preciso, a maior afinidade com as questões do paciente também são importantes para o tratamento de determinadas condições e/ou orientações importantes que precisam ser dadas para a manutenção de um bom estado de saúde da população.

— Mulheres bissexuais são as que têm uma incidência maior de gravidez, por exemplo, porque quando ela chega e fala que está se relacionando com outra mulher, o profissional não costuma perguntar qual é a orientação dela e não orienta a contracepção. Existem coisas que só quem está habituado e que sabe vai perguntar — avalia Andrea Hercowitz.

Quando o estudante Gustavo Martins, de 23 anos, procurou acompanhamento psicológico, ele focou as buscas em profissionais que são ou já passaram pela experiência de ser uma pessoa de baixa renda.

— Tendo vivenciado uma realidade parecida com a minha, o psicólogo consegue ter uma dimensão melhor das minhas dores, dificuldades e anseios no meu dia a dia. Há uma conexão muito maior, inclusive por eu não ter que ensinar sobre algumas coisas básicas da realidade de uma pessoa pobre, como o estresse diário com transporte público, ou mesmo o fato de não poder arcar com as sessões e ter que desmarcar algumas — argumenta Gustavo.

Os motivos do estudante fazem sentido, uma vez que psicólogos, assim como demais trabalhadores da área da saúde, não são neutros, e suas vivências têm papel fundamental na prática profissional.

— Não é apenas um corpo alheio à cidade, às relações raciais, aos marcados sociais. É um corpo atravessado por questões de raça, gênero, classe e sexualidade, e isso tem efeitos no trabalho que esse profissional poderá exercer— ressalta Daniella Zichtl Pichetti, psicóloga clínica e pesquisadora das relações raciais com ênfase na saúde mental pública.

Mas apesar das iniciativas para oferecer profissionais diversos, o luxo da escolha ainda é para poucos, como lembra a médica Ana Fragoso, que atua com medicina de família e comunidade.

— Muitas vezes, a pessoa não tem essa opção de escolher por quem ela vai ser atendida. Quando ela busca o Centro de Saúde ou o hospital, vai ter aquele profissional no momento e ela vai ter que ser atendida por ele se quiser ser atendida — destaca. — Infelizmente, essa opção de poder de escolha dos profissionais muitas vezes é da classe que tem condição de pagar consultas privadas.

Por isso, a doutoranda em psicologia Thais Rodrigues dos Santos, que trabalha na interface de políticas públicas e relações sociais, considera crucial a inclusão de grupos historicamente marginalizados na educação superior e na formação de profissionais de saúde, “já que a ciência e o progresso constituíram como sua representação universal o homem europeu branco cis e heterossexual e suas experiências desse lugar social de poder”.