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Volta de Lula à ONU causa expectativa positiva apesar de tropeços sobre guerra na Ucrânia e TPI
Analistas internacionais ouvidos pelo GLOBO afirmaram que declarações polêmicas sobre a guerra e o TPI causaram perplexidade, e que o mundo está se adaptando ao Lula 2023
19/09/2023 18h15
Por: Redação Fonte: O Globo
Lula discursa durante o lançamento do programa 'Transição Energética: Combustível para o Futuro' — Foto: Evaristo Sá/AFP

Após 14 anos de ausência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retorna à Assembleia Geral das Nações Unidas com uma imagem internacional positiva, apesar de algumas escorregadas que lhe custaram críticas por parte de aliados importantes para o Brasil na região, dos Estados Unidos e governos europeus. Declarações de Lula sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, sobre a participação do Brasil no Tribunal Penal Internacional (TPI), causaram perplexidade e decepção entre lideranças do Ocidente e da América Latina, afirmaram ao GLOBO especialistas em Relações Internacionais, mas nada que possa, ainda, afetar a credibilidade do chefe de Estado.

Como é tradição, nesta terça-feira, o presidente do Brasil será o primeiro a discursar na Assembleia Geral, que reúne anualmente os 193 países membros da organização. Em Nova York, afirma Ian Bremmer, presidente e fundador do Eurasia Group e da GZERO Media, a expectativa em relação à participação de Lula é muito boa:

— Depois de um começo difícil (com Lula exagerando na Ucrânia), há otimismo aqui na ONU em relação ao Brasil, em questões climáticas em primeiro lugar, e também sobre uma boa transição para sediar o G20 [em 2024].

O começo difícil ao qual Bremmer se refere são justamente as falas do brasileiro sobre a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Nos primeiros meses do ano, Lula disse, entre outras coisas, que a Rússia não poderia ficar com os territórios anexados da Ucrânia, mas que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tampouco poderia querer tudo, como a Crimeia — anexada pela Rússia em 2014. Em outra declaração polêmica, o presidente brasileiro afirmou que os EUA e os países europeus deveriam parar de fornecer armas para o governo de Zelensky, dando a entender que também eram responsáveis pela escalada do conflito. Em outra oportunidade, Lula assegurou que “a decisão da guerra foi tomada pelos dois países”.

Com esse pano de fundo, que se completa com críticas ao TPI e a afirmação de que, se for ao Brasil na cúpula do G20, no ano que vem, o presidente russo, Vladimir Putin — com ordem de captura emitida pelo tribunal internacional por crimes de lesa-Humanidade — não será preso, o retorno do presidente brasileiro à ONU atrai grande interesse de um mundo de disputas cada vez maiores entre EUA e China.

— Tudo o que vimos até agora causou um dano, mas existe, claramente, a intenção de proteger Lula, entender Lula, e preservá-lo como um aliado do Ocidente — explica Andrés Malamud, pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

O pesquisador conversa frequentemente com lideranças europeias e é testemunha da perplexidade que causaram alguns posicionamentos do presidente brasileiro.

— Vi lideranças de queixo caído e preocupadas, porque as falas complicadas de Lula alimentam críticas dos partidos de extrema direita na Europa. No fim do dia, todos tentam entender e se adaptar ao novo Lula, porque, depois de Bolsonaro, reconhecem que a melhora é indiscutível — aponta Malamud.

Apesar das dores de cabeça internas que as declarações do presidente brasileiro causam na Europa, os governos europeus, frisa o pesquisador, “consideram Lula um líder global, embora muito diferente do que foi em seus primeiros dois governos”.

Esse novo Lula busca, muito mais do que o fez em seus dois mandatos anteriores, projetar sua liderança no Sul Global, o que causa certa incômodo no Ocidente. Na visão de Juan Tokatlian, vice-reitor da Universidade Di Tella, de Buenos Aires, ninguém poderia dizer que Lula é antiocidental, mas “claramente ele olha com mais atenção para a Ásia e o Sul Global”.

— O presidente entendeu que o mundo mudou e busca ter uma voz diferente. Vejo o resto do mundo tentando se acomodar a essa posição — acrescenta Tokatlián.

O analista reconhece, porém, que falas de Lula foram “inconvenientes e impertinentes”, mas descarta qualquer possibilidade de isolamento do Brasil por conta desses tropeços. Na opinião do especialista argentino, “a Europa e os EUA devem se ajustar a um mundo novo, essa é a mensagem de Lula”.

As declarações do presidente sobre Putin e o TPI causaram mal-estar não apenas fora do Brasil, mas, também, dentro do governo. Fontes diplomáticas consultadas sobre o assunto pediram para não opinar sobre a posição do presidente, mas admitiram, com o compromisso de não serem citadas, discordar de qualquer tipo de ação para retirar o Brasil do tribunal internacional.

Em governos latino-americanos, entre eles o chileno, um dos que vêm questionando Lula publicamente, a fala de Lula sobre o TPI provocou preocupação, confirma Paulina Astroza, advogada, cientista política e professora de Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidade de Concepción.

— O Brasil foi um dos países mais ativos na criação do TPI, um dos primeiros 60 a aderir ao estatuto de Roma, que marcou o nascimento do tribunal. O que Lula disse foi imprudente, porque implica o desconhecimento de uma ordem de captura internacional contra Putin por crimes como roubo de crianças ucranianas — explica Astroza.

Para a especialista, esse tipo de posicionamentos debilita o soft power do Brasil em negociações internacionais.

— Quando Lula fala espontaneamente, aparece como uma liderança antiocidental — diz a professora chilena.

O mundo ainda está descobrindo o presidente Lula versão 2023. Nos primeiros nove meses de seu mandato, houve frustrações, surpresas e alguns sustos, mas o presidente brasileiro é reconhecido como um líder internacional que deve ser ouvido e respeitado. O mundo mudou, e Lula também.