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Crise econômica argentina trava operações e complica negócios de empresas brasileiras no país
Crise econômica argentina trava operações e complica negócios de empresas brasileiras no país
25/08/2023 08h18 Atualizada há 3 anos
Por: Redação
Exportadores brasileiros têm se queixado de que podem esperar até seis meses para receber de importadores argentinos. Até empresas com filiais no país vizinho enfrentam problemas — Foto: Luis ROBAYO / AFP

Exportadores têm se queixado de que esperam até seis meses para receber de importadores argentinos. Até companhias com filiais no vizinho enfrentam problemas

saída do Itaú Unibanco da Argentina, onde operava há mais de 40 anos, reflete os efeitos da crise do país vizinho — com inflação acima de 100%, falta de divisas e a recente instabilidade política — nas empresas estrangeiras. O Itaú se junta a outras multinacionais que deixaram a Argentina nos últimos anos, como a farmacêutica americana Eli Lilly, a empresa de entregas colombiana Glovo e a rede chilena de lojas de departamentos Falabella.

Os motivos, dizem analistas, são falta de previsibilidade, insegurança jurídica, inflação elevada, restrições às importações e dificuldades na transferência de moeda estrangeira para o exterior.

O Itaú informou ontem que vendeu a totalidade de sua operação na Argentina, onde estava desde 1979, para o Banco Macro por R$ 250 milhões. Em comunicado, o Itaú informa que manterá no país um escritório de representação.

Em fato relevante, o banco informou que reconhecerá perdas não recorrentes próximas a R$ 1,2 bilhão quando a transação for concluída.

A saída da Argentina ocorre às vésperas da eleição presidencial, que será em outubro, e em um cenário de inflação anual de 115% e desaceleração da economia.

A venda está sujeita à análise das autoridades reguladoras dos dois países.

Para João Augusto Salles, analista da Senso Investimentos e especialista em bancos, embora a operação do Itaú seja pequena na Argentina, ela tem um significado regional importante:

— Eu acho que o Itaú acaba perdendo. Um escritório de representação é pouco, até porque a operação é rentável para o banco. Em termos de estratégia de região geográfica, acho que não é bom. Poderia ter segurado um pouco mais para ver em qual direção do vento a economia argentina tende a soprar — explica o analista.

Ele lembra que o Itaú lida muito bem com economia recessiva e inflação alta:

Casa de câmbio na Argentina — Foto: bloomberg

— O problema são as incertezas políticas daquele país, com um candidato de extrema-direita crescendo na disputa presidencial.

Espera de mais de 90 dias

 

Para as empresas brasileiras que exportam para a Argentina, o maior problema é cambial. Sem reservas, o governo argentino vem criando barreiras à obtenção de dólares, inclusive para pagar exportações.

— Os calçadistas vêm tendo problemas, especialmente em função das dificuldades no acesso ao mercado de câmbio e do dilatado prazo para pagamento das importações, que chega a seis meses — diz o presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira.

Ele observa que após a criação do imposto Pais (sigla de “Por uma Argentina Inclusiva e Solidária”) sobre produtos importados, em julho, a situação ficou mais complicada e já se reflete na redução das vendas aos argentinos.

O empresário argentino Ricardo G, que prefere não revelar o nome completo, tem uma empresa no Brasil e outra na Argentina, no setor de software. A unidade argentina venceu uma licitação para fornecer equipamentos a uma rede de fibra óptica, que foram produzidos e exportados pela empresa no Brasil.

Estava tudo certo, até que há cinco dias a autorização oficial para que a operação de importação fosse paga sumiu do sistema.

O empresário, que já entregou os equipamentos à companhia que fará a instalação e recebeu em pesos, não sabe quando poderá comprar os dólares no câmbio oficial para pagar sua empresa brasileira. Segundo ele, que morou 25 anos no Brasil e conhece bem as expressões locais, essa situação está se repetindo “com a torcida do Flamengo”.

— A autorização estava pronta, e estava previsto que teríamos acesso aos dólares para pagar à nossa empresa brasileira em 10 de setembro. Mas a autorização sumiu, e não sabemos se vai demorar uma semana, um mês ou um ano — queixou-se o empresário.

O diretor financeiro da Agrale, Leonardo Moroziuk, conta que a filial argentina está amargando mais de 90 dias para obter autorização para pagar fornecedores no Brasil, que já avisaram que estão no limite da tolerância.

— Somos uma empresa binacional e compramos 90% de nossos insumos no Brasil. Até julho, a demora para ter acesso a dólares para pagar nossos fornecedores brasileiros era de 90 dias, mas foi ampliada em mais 45 ou até 60 dias — diz Moroziuk, que é vice-presidente da Câmara de Comércio Indústria e Serviços Argentino-brasileira.

A Agrale, cuja sede é em Caxias do Sul, produz chassis na Argentina há 20 anos.

Pagamento à vista

 

Já Giovanni Cardoso, fundador e CEO da fabricante de eletroportáteis Mondial, conta que exporta ao país vizinho apenas 10% do que poderia:

— A Argentina é um mercado consumidor muito importante, com mais de 40 milhões de pessoas. Eles têm boa vontade, mas não têm divisas para pagar pelas importações — diz Cardoso. — Se a Argentina tivesse dólares, as exportações seriam feitas normalmente.

Outro empresário brasileiro, este do setor de eletrônicos, disse, sob a condição de anonimato, que o pouco que vende a Argentina é feito “à vista e de forma antecipada” justamente por conta das incertezas de pagamento.

Ele vê com bons olhos a declaração do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que pode ser criada uma linha no Banco do Brasil para permitir o pagamento em yuans para exportações brasileiras à Argentina.

Outros empresários brasileiros que operam na Argentina foram procurados pelo GLOBO, mas preferiram não opinar, para evitar, disseram, “mais problemas com o governo argentino”.

Fonte: O Globo