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Plano de expansão do Brics enfrenta disputas internas e interesses geopolíticos divergentes
Plano de expansão do Brics enfrenta disputas internas e interesses geopolíticos divergentes
23/08/2023 07h56 Atualizada há 3 anos
Por: Redação
Lula, Xi Jiping (China), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Narendra Modi (Índia) e Sergei Lavrov (chanceler da Rússia), respectivamente, durante a cúpula dos Brics na África do Sul — Foto: Ricardo Stuckert/PR

África do Sul intermedia ambientações conflitantes entre China e Rússia, que defendem a expansão máxima, e Brasil e Índia, que adotam uma postura mais cautelosa para a adesão de novos membros

Em 2009, quando Brasil, RússiaÍndia e China (e posteriormente a África do Sul) se uniram para formar o Brics, o grupo simbolizava mais uma aposta na economia dessas nações emergentes do que um ator de peso na geopolítica global. Hoje, a longa fila de interessados em fazer parte do bloco sugere que o jogo mudou. Em seu discurso no Fórum Empresarial do Brics, que precede a cúpula que ocorre esta semana em Johannesburgo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou o papel de liderança do grupo para o Sul Global. A adesão de mais países em desenvolvimento, contudo, tem como pano de fundo de uma série de disputas internas e interesses geopolíticos conflitantes entre seus membros.

— Já ultrapassamos o G7 [grupo das sete nações mais ricas do mundo: Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido], respondemos por 32% do PIB mundial em paridade de poder de compra [PPP, que leva em conta o poder de cada moeda localmente, não apenas a cotação financeira] — disse o presidente Lula.

Porém, mais que tratados comerciais ou novos financiamentos, a cúpula está marcada pela influência regional e global. E isso passa pela expansão do clube:

— Defendo que os nossos irmãos da Argentina possam participar do Brics. Sou favorável à entrada de vários países. A gente vai se tornar forte, a gente quer criar um banco muito forte, que seja maior do que o FMI [Fundo Monetário Internacional], mas que tem outro critério para emprestar dinheiro para os países — afirmou, dizendo que os empréstimos do FMI são “quase um cabresto” e defendendo a criação de uma moeda comum para comércio entre os membros.

Um dos principais desafios da cúpula em Johannesburgo é estabelecer critérios objetivos para essa expansão, cuja fila inclui países tão diversos quanto Irã, Venezuela, Bielorrússia, Nigéria e Vietnã. Para o Brasil, além de injetar recursos no Banco do Brics — o que explica o apoio à monarquia saudita, segunda maior produtora de petróleo do mundo —, teriam mais chances de entrar para o clube as nações que defendessem a ampliação do número de assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, proposta desaprovada por Pequim.

Brics em expansão — Foto: Editoria de Arte

Liderança chinesa

 

A China tem seus próprios planos para o Brics. Sob comando de Xi Jinping, a maior potência econômica do clube almeja usá-lo tanto como plataforma contra os Estados Unidos quanto para expandir sua influência no Sul Global. A estratégia é especialmente relevante neste momento, em que Washington vem fortalecendo alianças com nações como Japão e Coreia do Sul, que se reuniram numa cúpula histórica na semana passada, criando um acordo de autoproteção entre as nações em caso de ataques de terceiros, considerada por muitos uma “mini-Otan (aliança militar ocidental) do Pacífico”.

Lula, contudo, não quer um alinhamento automático com Pequim: “O Brics não é contraponto ao G7, nem ao G20, nem contra ninguém. Queremos nos organizar enquanto Sul Global, uma coisa que não existia antes. Somos importantes no debate global, sentando na mesa de negociação, em pé de igualdade com a União Europeia e os Estados Unidos”, escreveu o presidente brasileiro em uma rede social.

Por outro lado, seu principal assessor externo, o ex-chanceler Celso Amorim, adotou um tom mais forte:

— Essa reunião deixa muito claro isso. Todo esse interesse que existe de expansão, de países que desejam ser parceiros ou membros plenos do Brics, demonstra que o grupo é uma nova força no mundo, que o mundo não pode mais ser visto como ditado pelo G7 — afirmou Amorim.

O governo brasileiro, porém, tem defendido mais a expansão dos integrantes do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD, conhecido como Banco do Brics), instituição financeira do bloco comandada pela ex-presidente Dilma Rousseff, do que do grupo de países em si. Das 40 nações que já manifestaram interesse em integrar o grupo — 23 delas oficialmente —, Lula sinalizou apoio à candidatura de quatro: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Argentina, esta última expressamente em sua live semanal, transmitida da capital sul-africana na terça-feira.

 

Um Brics liderado por Pequim seria um pesadelo para alguns países interessados em integrar o grupo, como o Vietnã — que luta por reconhecimento territorial no Mar do Sul da China —, mas também para outro importante membro, a Índia, comandada pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Segunda maior economia do bloco, Nova Délhi tem uma postura mais próxima a de Brasília sobre a entrada de novos membros: não rejeita a ideia totalmente, mas não quer ver seu poder diluído durante a expansão e acabar fortalecendo o chinês Xi Jinping nesse processo.

Desafios indianos

 

A Índia, além de manter próprias relações com o Ocidente — integrando alianças como a chamada Quad, que inclui EUA, Japão e Austrália —, também tem um histórico de tensões com a China. Uma delas é a disputa territorial em Tawang, região que Pequim afirma fazer parte do Tibete. Em dezembro, soldados chineses e indianos entraram em confronto na região.

Do ponto de vista da Rússia, a ampliação dos Brics é uma oportunidade de aumentar sua influência sobre países em desenvolvimento — um gesto similar à cúpula Rússia-África no mês passado — e mostrar que não está isolada, apesar da guerra na Ucrânia. Aliados como Irã e Bielorrússia estão entre os candidatos para integrar o bloco.

Os interesses do Kremlin em torno da cúpula, porém, não foram suficientes para fazer o presidente Vladimir Putin ir para Johannesburgo. O líder russo enviou o chanceler Sergey Lavrov para representá-lo. A decisão partiu após uma polêmica: signatária do Tribunal Penal Internacional (TPI), a África do Sul seria teoricamente obrigada a cumprir a ordem de prisão da corte contra Putin, acusado de enviar ilegalmente centenas de crianças ucranianas para a Rússia durante a guerra.

No duelo entre a expansão total, representada por China e Rússia, e a cautela, encampada por Brasil e Índia, a anfitriã África do Sul — menor economia e último país a aderir o bloco, em 2010 — tem atuado como intermediadora. Por um lado, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa enfrentou uma série de críticas por manter laços estreitos com Moscou. Por outro, liderou uma missão de paz de líderes de diversas nações africanas para negociar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia. (Com agências internacionais).

Fonte: O Globo