Um alívio nos preços dos alimentos e combustíveis ajudou o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) a registrar a primeira deflação em nove meses. O índice recuou 0,08% em junho, após alta de 0,23% em maio. Essa é a menor variação para o mês de junho desde 2017, quando o índice ficou em -0,23%. Os dados foram divulgados pelo IBGE nesta terça-feira.
Apesar de alimentação e combustíveis terem puxado para baixo o indicador, a queda observada nos preços dos automóveis novos e usados foi determinante para o IPCA registrar deflação. Segundo cálculos do IBGE, o índice teria uma alta de 0,03% em junho caso fossem retirados da cesta de consumo os automóveis novos e usados, que caíram por conta do programa de descontos do governo para compra de veículos.
Economistas reconhecem que o ritmo de alta dos preços no país segue perdendo força, mas o movimento ainda enseja cautela por parte do Banco Central na calibragem dos juros. O Comitê de Política Monetária vai se reunir em agosto para decidir a taxa Selic, um dos principais instrumentos de controle da inflação, que hoje está em 13,75% ao ano.
A alta de preços está menos espalhada segundo o índice de difusão (que mede a quantidade de itens que subiram de preço na pesquisa): ficou em 50% em junho, o menor percentual desde maio de 2020. Por outro lado, o IPCA de serviços acelerou: saiu de 0,06% em maio para uma alta de 0,62% no mês passado. O dado inclui itens como serviços de mão de obra e estética, que são mais ligados ao mercado de trabalho e aos salários, cuja dinâmica é menos volátil e a alta custa a se dissipar.
Na visão de Vitor Martello, economista-chefe da Parcitas Investimentos, o resultado do IPCA não impede que o Copom inicie o ciclo de cortes em agosto, mas pede cautela, de modo que o Copom corte somente 25 pontos-base na reunião em agosto.
Daniel Cunha, estrategista da BGC Liquidez, também espera que o BC faça um corte de 0,25 pontos-base em agosto.
— Serviços mostram uma dinâmica ainda longe de dar conforto adicional para o Banco Central.
Já o economista André Perfeito projeta que a autoridade monetária poderá reduzir a Selic em 50 pontos-base já na próxima reunião, apesar de a maioria dos analistas considera uma redução de 25 pontos. Ele destaca o histórico da atual diretoria, que tem feito movimentos mais incisivos durante a gestão.
Outro ponto que merece destaque em relação ao comportamento dos preços é a deflação de alimentos consumidos no domicílio, que devem seguir trajetória mais benigna em meio à safra recorde de grãos e apreciação do real frente ao dólar:
— Além disso, as expectativas para a inflação estão ancoradas. Estamos no melhor momento da inflação, onde tem uma perspectiva de atividade econômica ainda fraca — afirma Perfeito, que prevê que o IPCA terminará 2023 em alta de 4,8%, próximo do teto da meta para o ano, de 4,75%.
Luiza Benamor, analista de inflação da Tendências Consultoria, acrescenta que a apreciação do real contribuiu em junho para que os preços de bens industriais e alimentos virem menos pressionados. Mas o cenário pede que a diretoria do BC aja com cautela na reunião de agosto.
Ela lembra que os núcleos de inflação estão desacelerando, mas ainda seguem em patamar elevado (alta de 5,8%), bem acima da meta de inflação, de 3,25%. Além disso, as medidas anunciadas pelo o governo de incentivo à demanda e valorização do consumo pesam contra a desaceleração dos preços:
— A leitura de julho demanda um pouco de cautela para controlar todo o otimismo que vimos nas últimas semanas em diversos ativos. Ainda assim, é inegável que a expectativas inflacionárias pararam de desancorar. A queda de juros vai poder se intensificar a partir da reunião de setembro, puxado pela melhora nas expectativas de inflação para 2023 e 2024 e de longo prazo, que foi muito influenciada pela decisão do Conselho Monetário de manter a meta de inflação— avalia.
A retração nos preços associados à alimentação e transportes puxou para baixo o índice no mês. Juntos, esses dois grupos são os que mais pesam na cesta de consumo das famílias: representam quase metade do índice geral (42%). Os dois contribuíram juntos com -0,22 ponto percentual em junho.
O comportamento dos preços no país — Foto: Editoria de Arte/O Globo
O grupo Alimentação caiu 1,07%, puxado pela queda na alimentação no domicílio. Os preços do óleo de soja caíram 9%, enquanto o custo das frutas, do leite longa vida e das carnes ficaram entre 2% e 3% mais baratos. Já a alimentação fora do domicílio, desacelerou de 0,56% para 0,46%, em virtude das altas menos intensas do lanche e da refeição.
— Nos últimos meses, os preços dos grãos, como a soja, caíram. Isso impactou diretamente o preço do óleo de soja e indiretamente os preços das carnes e do leite, por exemplo. Essas commodities são insumos para a ração animal, e um preço mais baixo contribui para reduzir os custos de produção. No caso do leite, há também uma maior oferta no mercado — explica André Almeida, analista da pesquisa.
Em Transportes, uma queda de 0,41% foi puxada por uma retração nos preços dos automóveis novos (-2,76%), dos automóveis usados (-0,93%) e combustíveis (-1,85%), incluindo quedas do óleo diesel, do etanol, do gás veicular e da gasolina. No lado das altas, as passagens aéreas subiram 10,96%, após queda de 17,73% em maio.
A queda do combustível está atrelada à redução dos preços da gasolina pela Petrobras. A estatal anunciou cortes no dia 17 de maio e no dia 30 de junho, um dia após volta da cobrança de impostos sobre combustíveis. No ano, já realizou cinco cortes no preço do combustível.
Segundo André Almeida, do IBGE, a redução nos preços dos automóveis está relacionada ao programa de descontos para compra de veículos novos, lançado em 6 de junho pelo governo federal. Isso pode ter relação também com a queda dos preços dos automóveis usados, segundo o analista.
Já o grupo Habitação avançou 0,69%, puxado pela alta da energia elétrica residencial (1,43%), seguida pela taxa de água e esgoto (1,69%). Em ambos os casos, houve reajustes aplicados em algumas áreas de abrangência da pesquisa. Por outro lado, houve queda nos preços de gás encanado (-0,04%), devido a reduções tarifárias, e do gás de botijão (-3,82%).
O grupo Saúde e cuidados pessoais, por sua vez, avançou 0,11%, influenciado pela alta nos preços dos planos de saúde, decorrente de reajuste autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Fonte: O Globo