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Geopolítica - Putin corteja China, e Biden se reúne com Otan na véspera de 1º aniversário da guerra na Ucrânia
Geopolítica - Putin corteja China, e Biden se reúne com Otan na véspera de 1º aniversário da guerra na Ucrânia
22/02/2023 17h12 Atualizada há 3 anos
Por: Redação
Foto: Reprodução

Presidente russo recebeu chanceler de Xi, que destacou relação 'sólida' com Moscou; americanos reforçaram laços com flanco oriental da aliança militar

A dois dias do primeiro aniversário da invasão russa na Ucrânia, o presidente Vladimir Putin recebeu em Moscou o chanceler chinês, Wang Yi, celebrando a relação "sólida" dos dois países e o desejo de aprofundá-la ainda mais. Diante do isolamento pelo Ocidente, Moscou aposta cada vez mais na aproximação com uma pragmática Pequim, que promete apresentar nesta semana uma proposta de paz para cessar o conflito.

A 1,2 mil km dali, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, encerrava sua viagem à Europa, que começou com uma visita-surpresa a Kiev. O compromisso final do democrata foi uma reunião com os líderes dos Nove de Bucareste — países do flanco oriental da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e, portanto, mais vulneráveis a agressões russas.

Vários desses países estão entre os maiores defensores do envio de armas à Ucrânia e da enxurrada de sanções contra Moscou, que almejam minar a capacidade de o Kremlin financiar sua invasão. Para amortecer o impacto das medidas, Putin olha cada vez mais para Pequim, inclusive como destino de exportações que antes iam para a Europa.

No início de sua fala durante a reunião com Wang, Putin disse que as trocas entre os países podem chegar a US$ 200 bilhões neste ano, em comparação com US$ 185 bilhões no ano passado. Pediu ainda para o chanceler transmitir suas saudações para o "amigo" Xi Jinping:

— Tudo está progredindo, se desenvolvendo. Estamos atingindo novas fronteiras — disse Putin, completando que espera receber Xi para uma visita nos próximos meses, algo ainda não confirmado por Pequim. — E, acima de tudo, estamos falando, claro, sobre assuntos econômicos.

Dilema para a China

 

A guerra é uma questão difícil para os chineses, que têm buscado se posicionar de forma neutra, mas fornecem apoio diplomático a Moscou. Os EUA disseram na semana passada que acreditam que a China avalia o envio de armas para os russos, algo negado por Pequim.

Para Xi, o Kremlin é um aliado-chave contra o que considera um cerco ocidental a seus interesses estratégicos, em especial na Ásia, e no desejo de fazer frente à hegemonia americana com a defesa de uma ordem multipolar. Também prioriza evitar sanções e preservar os laços econômicos com o Ocidente, algo que demonstrou na viagem que fez pela Europa nos últimos dias.

— A atual situação internacional é de fato crítica e complexa, mas a relação entre a China e a Rússia é sólida como uma montanha e pode resistir ao teste dos riscos internacionais — disse Wang, afirmando que o relacionamento entre os países é "sólido como o Monte Tai", uma famosa montanha chinesa, e não será prejudicado por pressões internacionais.

Em um comunicado, os chineses afirmaram que a dupla "discutiu profundamente sobre a questão ucraniana" e que a Rússia está disposta ao "diálogo e negociação". No fim de semana, disseram que irão apresentar nos próximos dias uma proposta de paz, cujos elementos já foram mostrados ao chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba.

Pouco após o encontro com Wang, contudo, Putin fez um discurso no Estádio Lujniki, em Moscou, para celebrar o Dia dos Defensores da Pátria, comemorado na quinta-feira. Nele, não deu sinais de que há trégua à vista:

— Quando estamos unidos, ninguém é igual a nós — disse ele durante o evento, que tocou músicas de exaltação à vitória na Segunda Guerra Mundial e ao conflito na Ucrânia.

Biden na Polônia

 

A fala foi rápida, um dia após ao longo discurso anual sobre o estado da união, em que anunciou a suspensão da participação de Moscou no tratado de desarmamento nuclear Novo Start, último acordo desse tipo com os Estados Unidos. A decisão russa, disse Biden em Varsóvia, foi "um grande erro".

Durante sua reunião desta quarta com os Nove de Bucareste — Bulgária, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Polônia, República Tcheca, Romênia e Eslováquia —, Biden reafirmou o compromisso dos EUA com o grupo. Aos pares, ele prometeu proteger "cada centímetro" da Otan, a aliança militar encabeçada por Washington.

— Vocês estão na linha de frente da nossa defesa coletiva — disse o americano aos outros presidentes no início do encontro. — E vocês sabem mais que qualquer um o que está em jogo neste conflito. Não só para a Ucrânia, mas para a liberdade das democracias pelo mundo.

A pedra angular da Otan é seu Artigo 5, que consagra o princípio de defesa coletiva da aliança: o ataque a um membro é um ataque a todos. Alguns dos países que recebem o aceno de Biden temem que sejam os próximos no alvo de Putin caso o Kremlin seja bem-sucedido em sua invasão.

— O compromisso dos EUA com a Otan (...) é absolutamente claro. O Artigo 5 é um compromisso sagrado que os EUA fizeram. Defenderemos literalmente cada centímetro da Otan, cada centímetro da Otan — afirmou o americano.

Os Nove de Bucareste, contudo, não são um grupo de todo coeso: há duas notórias vozes dissonantes no que diz respeito à dimensão do apoio à Ucrânia. O premier húngaro, Viktor Orbán, é aliado de Putin e se opõe abertamente a ajudar militarmente a Ucrânia. Os búlgaros, por sua vez, vêm endurecendo seu posicionamento sob o comando do presidente presidente Rumen Radev.

Ambos, contudo, assinaram uma declaração conjunta ao fim da reunião pedindo o fortalecimento da presença da Otan no flanco oriental, afirmando que a Rússia é "a mais significativa e direta ameaça à segurança dos aliados":

"A Ucrânia exerce o direito legítimo de defender a si mesma contra a agressão russa para reconquistar controle total de seu território", disse o comunicado. "Vamos continuar a apoiar os esforços da Ucrânia para este fim, por quanto tempo for necessário."

Fonte: O Globo