á a Euromonitor Beauty and Personal Care 2020 Brasil, outro levantamento sobre o setor, mostra que, enquanto o mercado de cosméticos tradicionais cresceu em média 5%, os naturais cresceram 10% no mesmo período. Os bons números sustentam o otimismo com que os fabricantes falam do futuro, mas não minimizam os desafios do dia a dia para colocar itens sustentáveis no mercado.
— Não há legislação no Brasil que regulamente o que é natural e o que não é. E isso traz problemas muito sérios. Da confusão que causa no consumidor ao greenwashing (quando ações sustentáveis ficam mais no discurso que na prática) — afirma Beatriz Branco, diretora de marketing da marca suíça Weleda.
Ela acrescenta:
— O conceito mais percebido pelo consumidor brasileiro é o teste em animais. Mas isso não tem nada a ver com o produto ser natural ou não. Nunca testamos em animais, mas não quer dizer que somos veganos.
A disputa pela atenção do consumidor vai muito além do posicionamento de cada concorrente. Produtos sustentáveis podem custar entre 30% e 40% mais que os tradicionais, e não só por usarem matérias-primais mais nobres, mas sobretudo pela pouca disponibilidade desses insumos. Um exemplo é o silicone, de origem mineral, cuja aplicação vai dos cosméticos a próteses e automóveis.
— Como nosso consumo é menor que outros setores, quando há falta na cadeia de distribuição, estamos no fim da fila dos fornecedores — diz o diretor de pesquisa e desenvolvimento do grupo O Boticário, Gustavo Diemant.
Suelma Rosa, líder de reputação e assuntos corporativos no Brasil e América Latina da Unilever, não apenas concorda como acrescenta outras dificuldades ao extenso rol de barreiras a transpor.
— Quando se pensa em ingredientes, há duas limitações importantes: o custo é alto, a oferta é baixa e há muitos novos entrantes no mercado. Por outro lado, todo o processo de desenvolvimento de novos componentes é extremamente demorado. No caso de pesquisas científicas, pode-se levar até dez anos — afirma a executiva.
Ela acrescenta que uma das estratégias da companhia para ampliar a oferta de produtos sustentáveis tem sido, além de pesquisa e desenvolvimento, a aquisição de marcas já estabelecidas no mercado, a exemplo da compra da brasileira Mãe Terra, de alimentos naturais e orgânicos, em 2017.
No Boticário, diz Diemant, o processo de introdução de novos fornecedores e de matérias-primas não demora menos que 60 dias, com avaliação de itens que consideram se o candidato a novo fornecedor não faz uso de produtos químicos, como solventes; se não tem trabalho escravo na ponta da cadeia; e se o item em questão não provém de desmatamento. São 90 itens de avaliação e um deles é se há traço animal na matéria-prima, conta.
Na Natura, há 85 cadeias de fornecimento, envolvendo cerca de 40 comunidades instaladas especialmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, com mais de 8 mil famílias envolvidas. Assim, a matéria-prima é uma questão relativamente resolvida para atender um portfólio onde 93% dos produtos são veganos e 96% são biodegradáveis.
— Sempre começamos pela estruturação da cadeia de fornecimento para desenvolver a escala — diz a diretora de marketing, Denise Coutinho.
De acordo com a executiva, o grande problema na Natura hoje é obter escala com vidro reciclado. Quando a empresa começou em perfumaria, em 2006, nem 20% dos vidros eram reciclados. Hoje, o índice passou para 30% a 40%.
O preço que a indústria paga por embalagens, matérias-primas e logística para oferecer produtos mais sustentáveis, inevitavelmente vai parar no ponto de venda. O Grupo Pão de Açúcar, varejista que trabalha com mais de 1,2 mil produtos orgânicos nas lojas, tem uma estratégia para essas linhas.
— Colocamos os produtos verdes de forma agregada, criamos um ambiente saudável e oferecemos uma boa experiência de compra para os clientes — explica Renata Amaral, gerente de Sustentabilidade da empresa.
Difícil encontrar empresa de grande porte que não esteja ao menos começando sua jornada mais sustentável. No Boticário, diz Diemant, mais de R$ 100 milhões já foram investidos em práticas ESG. O esforço, porém, ainda não se traduz em receita. Segundo ele, 75% dos consumidores percebem valores sustentáveis por trás dos produtos, mas apenas 30% a 40% optam por comprá-lo.
— Quando você coloca um produto ao lado do outro, a opção é pelo mais em conta.
Fonte: O Globo